Arquivo do mês: dezembro 2011

Atrasado

Nasci de 10 meses. Não foi nada planejado, minha mãe não teve complicações no parto nem nada, só aconteceu. A partir daí, tudo na minha vida atrasou, como se fosse uma regra. Só entrei na escola aos 9 anos, não porque eu não tenha passado nos testes ou porque a escola não tivesse vagas, apenas calhou de acontecer nessa idade. Depois de entrar no colégio, não consegui chegar um dia sequer no horário da aula e, na maioria da vezes, eu ficava um pouco mais tempo no recreio, só para saborear melhor meu lanche, nada que impedisse que eu acabasse o terceiro colegial aos 21 anos, mais ou menos quando eu chegava a puberdade.

Comecei a namorar nessa época também, mas não durou muito, lembro que terminamos um dia depois do aniversário dela, quando cheguei a sua casa com um chapeuzinho na cabeça e cantando “parabéns para você” atrasado. Na verdade, acho que a gota d’água foi quando eu a deixei esperando na porta da minha casa por 6 horas (sim, eu ouvi a campainha, mas estava terminado de arrumar umas coisas no meu quarto).

Aos 28, entrei na faculdade, mas como só fui me matricular dois dias depois da data prevista, acabei perdendo a vaga. Dois anos depois consegui meu primeiro emprego, na INFRAERO, onde fiquei por três anos. Em 2008, lembro que comemorei o réveillon do dia 1 para o dia 2 de janeiro, porque não tinha terminado de me arrumar.

Quase que me caso em 2009, mas atrasei um pouco na hora de dizer “sim” e minha noiva desistiu de tudo, achando que eu estava confuso e inseguro. Talvez tenha sido melhor assim, na época eu tinha atrasado uma semana para comprar as passagens da lua-de-mel e acabou que eu não tinha conseguido os sonhados bilhetes para Bahamas.

Esse ano, pelo menos, as coisas estão indo melhor. Consegui esse emprego de cronista no jornal e está indo tudo super bem. Só peço desculpas aos leitores por esse texto sair só hoje, é que eu tive uns problemas com o computador e tudo atrasou.

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Porra, a de manga não!

Às vezes, quando não tenho nada pra fazer, tento lembrar de pequenas coisas que me faziam rir muito. É um bom exercício, devo dizer, traz coisas realmente significantes de volta a cabeça, mas não posso dizer que é fácil, pelo contrário, em muitos momentos passo duas horas sem lembrar nada.

Tudo consiste em tentar puxar algo realmente insignificante na memória, alguma coisa que poderia tranquilamente passar despercebida, mas não passa por alguma razão obscura da sua cabeça.

Outro dia lembrei de como era comprar uma bala de goma na escola. Havia tanta coisa envolvida no simples ato de comprar uma, que isso se tornava motivos de discussões e risadas de um dia inteiro. A bala de goma era 50 centavos, me lembro até hoje (não que dois anos sejam muito tempo, mas o preço da bala de goma da cantina não é algo marcante para muitos), e o pacote vinha com 10 unidades, o que significava que se algum infeliz te pedisse uma, ele estaria usurpando 10% do seu pacote de alegria.

Lembro que era comum pedir uma para alguém e ouvir em resposta: “Araou”. O que, para uma pessoa com oito balas na boca significava “Acabou”. Eu olhava para a pessoa, que estava lacrimejando e babando no chão e dizia que ia ter volta. E tinha. No meio da aula de história eu abria o meu pacote e colocava tudo na boca, só de sacanagem. Se o professor me perguntava alguma coisa naquela hora, eu só apontava para alguém do lado.

Mas acho que a melhor coisa em relação a bala de goma, é que dentre todos os deliciosos sabores, havia a de manga, que, sendo gentil, não era tão boa (era uma merda, sério). A de manga, na verdade, era rara, como uma figurinha brilhante, mas às vezes vinha, e quando acontecia era de foder.

Não tinha como saber o sabor antes, era preciso colocar na boca e mastigar para descobrir, era a loteria da bala de goma. E quando acontecia com você era um desastre, todos riam da sua cara, apontando, e você, com aquele pedaço de “horrível” na boca.

Agora, quando acontecia com o outro, era festa, me lembro até hoje da cara das pessoas mastigando a de manga, era algo que me valia o dia. As aulas mais alegres eram aquelas que eu ouvia de longe: “Porra, a de manga não!”, e começava a gargalhar. Talvez um dos melhores dias do ano foi quando pegaram um pacote só com balas de manga, como se um raio caísse dez vezes no mesmo lugar.

Hoje, parei de comprar balas de goma, pegar a de manga sem ninguém pra rir de você é realmente triste. Saudades do colégio.

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Fenomenal

Em 2009, fui até o Pacaembu assistir a Corinthians x Atlético PR pelas oitavas de final da copa do Brasil. O jogo de ida havia sido 3×2 para o Atlético, e até a metade do segundo tempo do jogo de volta, o placar ainda marcava 0×0. O Corinthians parecia apático e não mostrava sinais de reação. Foi quando Ronaldo dominou na entrada da área , fingiu o chute, e depois chutou no canto direito do goleiro para marcar. Pouco depois, o camisa 9 recebeu dentro da área, tirou dois zagueiros com um toque de calcanhar e sofreu pênalti, que ele mesmo converteu. 2×0, dois gols de Ronaldo. Os primeiros gols de Ronaldo que eu vi no estádio.

Desde pequeno, meu pai me falava sobre os jogadores que ele havia visto ao vivo. Desde Sócrates e Rivelino, até o rei Pelé. Agora era a minha vez, eu estava ali, vendo o maior artilheiro da história do maior campeonato do mundo, o brasileiro eleito por três vezes o melhor do mundo, o cara que eu só via na ESPN ou nos jogos da copa do mundo. Era o jogador que encantou torcidas rivais, de Barcelona e Real Madrid a Milan e Inter de Milão. Ele estava ali, a poucos metros de distância.

Não era o mesmo, é verdade, agora vestia uma camisa um pouco mais larga, GG talvez. Não corria mais, agora precisava esperar a bola no pé. Mesmo assim era ele, fazendo o que o fez famoso, gols.

E foi naquela noite, em um Pacaembu lotado, que eu coloquei o primeiro nome na minha lista dos craques que eu vi jogar.

 

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Calendário gastrônomico

Acho engraçada essa cultura de comer uma determinada comida apenas em uma época especifica do ano. Digo, quem fez as regras sobre o cardápio de determinados meses e feriados?

O panettone, por exemplo, só pode ser apreciado entre novembro e janeiro, ninguém liga se você gosta e quer comer em julho, você não vai, não adianta nem procurar nos mercados, é como esperar a nova temporada da sua série preferida. Talvez outro exemplo disso, mas de forma contrária, seja o pé de moleque. Quero dizer, o pé de moleque não é algo que as pessoas adorem, eu pelo menos nunca conheci uma pessoa cujo prato predileto seja pé de moleque. Em junho, porém, época da festa Junina, o doce começa a ser vendido, e, por mais incrível que pareça, consumido. Isso acontece, por que essa é justamente a época de comê-lo, então as pessoas comem, como se fosse um combinado. Agora, nos meses sem festa junina, os comerciantes nem fazem o esforço de colocar o item a venda, ninguém vai comprar mesmo.

A mesma coisa acontece com a lentilha, prato comum no ano novo mas uma raridade nos outros dias do ano. Minha avó sempre diz: “Lentinha é quase igual feijão”, e é exatamente por isso que ninguém come, é quase igual, mas não é igual, feijão é melhor. A justificativa do consumo no dia 31 de dezembro, é que a lentilha traz fortuna, como se nos outros dias do ano ninguém quisesse dinheiro.

E a rabanada então? É o prato feito para os convidados das festas de Natal terem o que levar. Agora, se em qualquer outra festa, um convidado levar rabanadas, ele será visto como obeso ou simplesmente, judeu.

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Samba, bossa nova e rock’n roll

Eram 9 da manhã, João caminhava descalço no parque quando viu no chão um daqueles panfletos de videntes/pais de santo. Era do tipo, “trago a mulher amada em 30 dias”, mas, no caso, era “trago a mulher amada em cinco minutos”. João ligou e foi prontamente atendido por um homem que se dizia Hermes Trismegisto e sua celeste tábua de esmeralda.

– É um nome meio comprido, não acha? Disse João.

– Os deuses me deram, mas se quiser, pode me chamar de brother.

-Ok, brother. Eu estava querendo marcar uma hora com o senhor.

– Que pena! O senhor está no céu, com o anjo azul e bem perto de Jorge, da Capadócia. Mas você pode falar comigo se quiser, o endereço está no meu panfleto. Engenho de Dentro. Procure pelo homem da gravata florida. Eu vou torcer pra você encontrar.

Mais tarde, lá estava João, no prédio onde ficava a sala de consultas do tal Hermes. Ele foi atendido por uma moça bonita, que o mandou esperar. A sala de espera era um tanto excêntrica, havia quadros de Zumbi, Fio maravilha, Umbabarauma e Zico, o camisa 10 da Gávea. João até gostou, adorava futebol e aquilo o fez lembrar de seus tempos de zagueiro. Do outro lado da sala, perto da recepcionista, havia um quadro com a imagem de um vendedor de bananas, e ao lado, os dizeres “Errare Humanum Est”.

– Gostou da frase? Disse Hermes entrando na sala.

– Caramba! Que susto! – Disse João, pulando da cadeira.

– Hermes Trismegisto escreveu.

– Esse não é você?

– Que maravilha! Ele lembra meu nome! Vamos garoto, por aqui.

Hermes encaminhou João para sua sala.

-Diga filho, o que você quer? Gostou da recepcionista? É a Berenice, ela mora na Pavuna, trabalha aqui desde o começo do mês, já chegou aqui me chamando de paixão! Um arraso! Quer que eu os apresente?

– É… não, obrigado. Foi até por isso que eu vim aqui. Não consigo tirar minha princesa da cabeça.

– Roberto, corta essa!

-Meu nome é João.

-Olha, não desanima João.

– Não dá… eu vivo pensando nela, todo dia me pego pensando: “onde anda o meu amor?”, e as vezes, vejo alguma mulher parecida na rua e já penso: “Oba, lá vem ela”. Eu não consigo agüentar!

– Sei… como ela é?

– Gostosa… Sempre usava um vestido coral. Aliás, quando eu conheci ela eu a chamava de menina do vestido coral.

– Olha só. E você era quem?

– O namorado da viúva, mas isso faz tempo, esquece. O que aconteceu foi que depois de um tempo tudo mudou. Eu mudei! Agora eu sou cruel, toda vez que no vemos ela chora.

– Mas que nada, menina bonita não chora. Conte-me o que houve.

– Ok, naquela época eu tocava bumbo na mangueira. Tudo ia muito bem com a Gabriela, nós nos tratávamos como rei e rainha sabe?

– No reino encantado do amor. Claro que sei!

-Isso! Eu sempre chegava em casa gritando: “Eu quero ver a rainha!”, e ela respondia: “ O rei chegou, viva o rei!”.

– Sinto lhe dizer mas o nome do rei é Pelé.

– Er… bom, ok então, eu era o cavaleiro do rei Arthur.

– Um cavaleiro do cavalo imaculado. Bonito isso.

– Sim! Era ótimo, mas aí eu fiz a besteira de me envolver com uma das passistas da mangueira. Foi um carnaval triste. Tudo piorou quando a Gabriela se mudou pra Índia, pra morar perto do Taj Mahal, sempre foi o sonho dela. Eu preciso da sua ajuda!

– Que bonito… me lembrou do dia em que o sol declarou seu amor pela terra. Acho que posso te ajudar sim, uma vez tive uma história parecida com essa. Foi com uma menina mulher, da pele preta. Denise Rei. No fim, a loba comeu meu canário.

– O que? A mulher comeu seu pássaro?

– Não! A loba! Preste atenção!… pois bem, no fim deu tudo errado e eu pedi a benção mamãe, a benção papai, e vim pro Rio. No fim foi bom, aqui tem mais cara de país tropical, não é?

– Sim, claro. Mas, você pode me ajudar? Desde de que nos separamos eu não durmo mais.

“Tim Dom Dom” – uma campainha tocou.

– O que é isso? Perguntou João.

– É o sino que avisa que a consulta acabou, até mais.

– O que? Como assim? Você não me ajudou!

– Não deu tempo, você ficou falando essas baboseiras de “rei Arthur, mangueira, por causa de você, menina, blá blá blá”.

– Mas…

-Olha, o telefone tocou novamente! Devem ser os alquimistas! Vaza daqui!

– Mas…

– Vai embora! Os alquimistas estão chegando!

– Mas…

-Espera! Só uma coisa. Você sabe quem roubou a sopeira de porcelana chinesa que a vovó ganhou da baronesa?

– O que?

– Ah! Você é um inútil! Ninguém gosta você! A mulher que você ama teve que ir pra Índia!

– Ei! Espera um pouc…

– Vai ou eu chamo o síndico!

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Papo de macho

 

– Cara, adoro quando eu estou no chuveiro do vestiário com o pessoal e o sabonete cai no chão.

– Que?

– Sabe? Quando tá todo mundo lá, peladão, aí o sabonete caí.

– Você gosta?

– Gosto.

– Você é viado?

– Não cara, gosto do clima que fica, sabe?

– Do que você ta falando?

– Aquela tensão, o pessoal se olhando, é engraçado.

– Que papo é esse?

– Pô cara, fica um clima engraçado.

– Que boiolice.

– Que é isso, só gosto quando o sabonete cai no chão, não é que eu sou gay.

– Não, sério, você é gay.

– Ta bom, eu sou gay então.

-Beleza.

– Beleza.

– (…)

– Mas que é engraçado, é.

 

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Pontos de vista

– Ah, acho que foi bom sim, sabe? A gente fica meio nervoso nessas horas, eu sou humano também! Tem que tentar impressionar o cara, falar bonito, sem gírias, sentar direito, reto, com postura e tal. Mas, assim, pela cara dele eu já vi que ficou impressionado comigo, haha, é… fazer o que. Começou pela minha roupa, meu estilo; ele logo viu que eu sou um cara descolado, mas que passa a seriedade necessária… também, depois dos meus 2 anos em Milão eu aprendi muito sobre moda. Haha, a cara dele quando viu minha gravata sueca foi impagável. Acho que ele também notou que minha beleza pode ser um atrativo, já que eu vou mexer com o público e tal… é o que eu sempre digo, um pacote bonito impressiona logo de cara, não é?

Depois disso eu comecei a falar das minhas habilidades, dei uma canjinha de francês e italiano, línguas que eu domino e falei sobre minhas pretensões futuras. Cheguei a falar dos meus defeitos também, o pessoal que contrata acha legal esse negocio, acho que eles te vêem mais humilde e tal, se bem que é meio complicado dizer um defeito em mim, então eu disse que eu nunca desisto do que quero, o que pode soar como um defeito para alguns. O cara ficou desviando o olhar algumas horas haha, deu pra ver que ele estava radiante… acho que estava animado pela sorte que deu em encontrar um cara tão jovem e com tantas qualificações. A partir disso ele já deve ter entendido que, portanto, meu salário vai ter que ser um pouco maior… de início. Digo, claro que depois de uns meses na empresa eles vão querer aumentar meu salário, nada mais justo, afinal, eles tem que tentar agradar o cara que, um dia, será o chefe deles.

– Empregos? Sim, veio um cara aqui hoje. Ele era uma merda.

 

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