Desconfortos intestinais

Era um cidadão exemplar, homem centrado, de família, médico de respeito, nunca teve problemas no trabalho, casado há mais de 30 anos, 2 filhos, uma porção de sobrinhos. Só tinha um problema: desconfortos intestinais. Casamentos? Não ia, muito arriscados. Praia? Jamais, seria suicídio social. Estádios? Nem em pensamento, não seria nada agradável enfrentar o banheiro do Pacaembu depois daquele pernil na Praça Charles Muller.

Ele tinha que manter o controle do problema, cultivar sua flora intestinal (mesmo sem saber se realmente possuia uma), não podia dar margem ao azar, ficava em casa quieto, sossegado, tranquilo, sabia que aquele problema não era fácil, ficava meses sem mostrar as caras e, “pimba!”, aparecia na pior hora.

Mas não deu jeito, era uma festa de noivado do melhor amigo do hospital, o Gilson, o problema não vinha há 4 meses, seria uma grande festa, comida, bebida, até karaôke. Ele aceitou o convite, até por que a desculpa dos “desconfortos intestinais” já não colava mais.

Os erros começaram de tarde, no almoço, quando, com pressa, comeu um pedaço de pizza de calabreza e uma coxinha na padaria do seu Miguel, mais a tarde, ele degustou um belo alfajor argentino que devia estar em sua gaveta por um tempo bem maior do que ele achou que realmente estava. Na hora da festa, sem tempo para passar em casa, foi com a roupa do trabalho mesmo, sapatos, calças, cinto e uma camisa de botões, todos brancos como a neve.

A festa era no novo apartamento do casal, lugar bonito, estavam todos lá, tudo muito agitado, e os erros, que começaram a tarde, continuaram a noite. Primeiro foi o sanduíche de atum, não dava para negar, eram feitos pela mãe do colega e ele insistiu muito. Depois foram os sonhos e as “carolinas”, docinhos irresístiveis que não poderiam ser ignorados. E, por fim, aquela sessão de memoráveis flashbacks da música disco que não deixavam ninguém parado, muito menos ele, fã incondicional dos anos 70.

Por volta de meia noite e quinze ele sentiu o problema voltar a bater a porta. Foi ao banheiro, ocupado. Foi ao outro banheiro, também ocupado. Achou que se sentasse um pouco, o problema desapareceria, não aconteceu. As pessoas que vinham falar com ele eram ignoradas ou recebidas com respostas atravessadas de um homem suado e com cara de dor.

Foi a área de serviço andando de pernas abertas, sua calça já começava a mostrar outra coloração, o cachorro do casal estava lá, dormindo em sua casinha, ao lado, jornais que o cão utilizava para fazer sua necessidades. Nunca uma página de fofocas foi tão útil a ele. Deixou tudo lá, até as ex-calças brancas. Só se sabe que 3 minutos depois ele já tinha ido embora sem comprimentar ninguém.

Agora, quando o Gilson o convidar para o casamento ele não irá dar a desculpa dos “desconfortos intestinais”, irá falar que está com caganeira mesmo, para não restar dúvidas.

 

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