Samba, bossa nova e rock’n roll

Eram 9 da manhã, João caminhava descalço no parque quando viu no chão um daqueles panfletos de videntes/pais de santo. Era do tipo, “trago a mulher amada em 30 dias”, mas, no caso, era “trago a mulher amada em cinco minutos”. João ligou e foi prontamente atendido por um homem que se dizia Hermes Trismegisto e sua celeste tábua de esmeralda.

– É um nome meio comprido, não acha? Disse João.

– Os deuses me deram, mas se quiser, pode me chamar de brother.

-Ok, brother. Eu estava querendo marcar uma hora com o senhor.

– Que pena! O senhor está no céu, com o anjo azul e bem perto de Jorge, da Capadócia. Mas você pode falar comigo se quiser, o endereço está no meu panfleto. Engenho de Dentro. Procure pelo homem da gravata florida. Eu vou torcer pra você encontrar.

Mais tarde, lá estava João, no prédio onde ficava a sala de consultas do tal Hermes. Ele foi atendido por uma moça bonita, que o mandou esperar. A sala de espera era um tanto excêntrica, havia quadros de Zumbi, Fio maravilha, Umbabarauma e Zico, o camisa 10 da Gávea. João até gostou, adorava futebol e aquilo o fez lembrar de seus tempos de zagueiro. Do outro lado da sala, perto da recepcionista, havia um quadro com a imagem de um vendedor de bananas, e ao lado, os dizeres “Errare Humanum Est”.

– Gostou da frase? Disse Hermes entrando na sala.

– Caramba! Que susto! – Disse João, pulando da cadeira.

– Hermes Trismegisto escreveu.

– Esse não é você?

– Que maravilha! Ele lembra meu nome! Vamos garoto, por aqui.

Hermes encaminhou João para sua sala.

-Diga filho, o que você quer? Gostou da recepcionista? É a Berenice, ela mora na Pavuna, trabalha aqui desde o começo do mês, já chegou aqui me chamando de paixão! Um arraso! Quer que eu os apresente?

– É… não, obrigado. Foi até por isso que eu vim aqui. Não consigo tirar minha princesa da cabeça.

– Roberto, corta essa!

-Meu nome é João.

-Olha, não desanima João.

– Não dá… eu vivo pensando nela, todo dia me pego pensando: “onde anda o meu amor?”, e as vezes, vejo alguma mulher parecida na rua e já penso: “Oba, lá vem ela”. Eu não consigo agüentar!

– Sei… como ela é?

– Gostosa… Sempre usava um vestido coral. Aliás, quando eu conheci ela eu a chamava de menina do vestido coral.

– Olha só. E você era quem?

– O namorado da viúva, mas isso faz tempo, esquece. O que aconteceu foi que depois de um tempo tudo mudou. Eu mudei! Agora eu sou cruel, toda vez que no vemos ela chora.

– Mas que nada, menina bonita não chora. Conte-me o que houve.

– Ok, naquela época eu tocava bumbo na mangueira. Tudo ia muito bem com a Gabriela, nós nos tratávamos como rei e rainha sabe?

– No reino encantado do amor. Claro que sei!

-Isso! Eu sempre chegava em casa gritando: “Eu quero ver a rainha!”, e ela respondia: “ O rei chegou, viva o rei!”.

– Sinto lhe dizer mas o nome do rei é Pelé.

– Er… bom, ok então, eu era o cavaleiro do rei Arthur.

– Um cavaleiro do cavalo imaculado. Bonito isso.

– Sim! Era ótimo, mas aí eu fiz a besteira de me envolver com uma das passistas da mangueira. Foi um carnaval triste. Tudo piorou quando a Gabriela se mudou pra Índia, pra morar perto do Taj Mahal, sempre foi o sonho dela. Eu preciso da sua ajuda!

– Que bonito… me lembrou do dia em que o sol declarou seu amor pela terra. Acho que posso te ajudar sim, uma vez tive uma história parecida com essa. Foi com uma menina mulher, da pele preta. Denise Rei. No fim, a loba comeu meu canário.

– O que? A mulher comeu seu pássaro?

– Não! A loba! Preste atenção!… pois bem, no fim deu tudo errado e eu pedi a benção mamãe, a benção papai, e vim pro Rio. No fim foi bom, aqui tem mais cara de país tropical, não é?

– Sim, claro. Mas, você pode me ajudar? Desde de que nos separamos eu não durmo mais.

“Tim Dom Dom” – uma campainha tocou.

– O que é isso? Perguntou João.

– É o sino que avisa que a consulta acabou, até mais.

– O que? Como assim? Você não me ajudou!

– Não deu tempo, você ficou falando essas baboseiras de “rei Arthur, mangueira, por causa de você, menina, blá blá blá”.

– Mas…

-Olha, o telefone tocou novamente! Devem ser os alquimistas! Vaza daqui!

– Mas…

– Vai embora! Os alquimistas estão chegando!

– Mas…

-Espera! Só uma coisa. Você sabe quem roubou a sopeira de porcelana chinesa que a vovó ganhou da baronesa?

– O que?

– Ah! Você é um inútil! Ninguém gosta você! A mulher que você ama teve que ir pra Índia!

– Ei! Espera um pouc…

– Vai ou eu chamo o síndico!

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s