Arquivo do mês: abril 2012

Eu e o E.T

Imagino um ser de outro planeta. Chegando em casa, tocando a campainha. Eu atendo e ele diz que está fazendo uma monografia sobre o ser humano, o habitante do planeta Terra. Convido ele pra entrar, ofereço um copo d’água, “sabe o que é? Água?”.

Ele se senta à mesa, educadamente.

Imagino que ele comece me perguntando como é o ser humano. Aí eu me imagino sem reação. Como é o terráqueo? Até parece que eu não vivi aqui toda a minha vida…

Imagino o extraterrestre tentando facilitar as coisas. Ele me pergunta: “O ser humano é bom?” – “Sim, claro”, respondo sem pensar.

Imagino que o tal do E.T é um cara estudado, que esteja tentando me armar alguma.

Ele continua: “Me explique, então, todas essas guerras.” Imagino que eu travaria de novo, olharia para o teto, gaguejaria. Ele, com dó de mim, (mas ainda tramando alguma), pediria outro copo de água. “Muito boa essa… água ein”. Eu trago o copo, e o questionário continua.

“Mas me diz, por que o ser humano é assim?” – “Assim como?” pergunto rápido. Imagino que nessa hora eu estaria realmente curioso. “Assim, prefere brigar do que se unir, machuca um ao outro, se acha maior que o outro, no direito de fazer o que quiser”. Imagino que nessa hora eu sinto o golpe, me sinta envergonhado. Ele continua: “Não era mais fácil fazer o certo, tentar fazer com que todos ganhassem, não pensar só em você mesmo?”. Eu olho pra ele e digo (numa tacada de mestre): “O ser humano é egoísta”.

O E.T me olha, faz uma cara de pensativo e anota algo em um bloquinho. Imagino que eu tentaria olhar, mas minha miopia me impediria, como sempre.

Imagino o extraterrestre pensando o próximo passo com cautela, e dizendo: “Você é bom?”. E então eu me imagino desviando o olhar e dando uma risada nervosa. “Sou… acho que sim… quer dizer, quem nunca errou? Normal… acho que sou… tento ser…”.

Imagino que o meu convidado é um brincalhão, e diz: “Brincadeira! Fica tranqüilo cara!”. Me imagino relaxando, realmente. E imagino ele dizendo: “Mas me diz, por que o ser humano é egoísta?” – “Hm, acho que as pessoas só pensam nelas” – “Mas não existem pessoas que se amam? Que pensam nas outras antes de fazer as coisas?” – “Sim, existem”.

Imagino que ficaria um clima meio ruim nesse momento. O E.T agradeceria, e iria embora, sem as respostas que queria. Imagino que eu ficaria triste por não ter conseguido dar as respostas que ele queria, mas imagino que eu perceberia que eu não tenho essas respostas, e então ficaria triste por mim.

Imagino que eu iria para o meu quarto e ficaria deitado olhando pro teto, pensando na conversa estranha que eu havia tido. Imagino que eu não chegaria a lugar nenhum, me perderia no pensamento e de quebra xingaria meia dúzia de pessoas (no pensamento, claro, mas ainda alivia bastante). Imagino eu repensando a conversa e lembrando que eu fui o ultimo a falar. “Existem sim, pessoas que se amam”. Imagino que eu me sentiria o máximo por isso, como se tivesse dado um xeque-mate no E.T intrometido.

Imagino que eu nem lembraria que foi ele que perguntou se não existiam pessoas que se amam. Imagino que eu nunca imaginaria que o E.T, estudado como é, sabia tudo sobre a minha vida, e na verdade, estava fazendo uma monografia sobre mim. Imagino ele percebendo que eu estava realmente numa época ruim e faria uma de suas mágicas alienígenas para ajudar.

Imagino que na verdade mesmo, tudo isso não passa da minha imaginação.

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