Arquivo do mês: julho 2012

E o frio é chique aonde?

Não sei se é em todo o Brasil, mas em São Paulo sempre ouvi que o frio deixa todos mais bonitos, mais elegantes. “O frio é chique”, dizem.

Pois foi então que ontem, no banheiro, fazendo o número dois com as mãos no bolso e os dentem batendo, pensei: “O frio é chique aonde?” , “O que tem de elegante nisso aqui?”. Muitos dizem que as pessoas se vestem melhor no frio, com casacos, luvas, sobretudos. É meu amigo, devo dizer que este, assim como o chupa-cabra e a felicidade às segundas-feiras, é outro mito existente. Brasileiro tem mania de querer ser europeu, tanto é que, para nós, os latinos são os venezuelanos, bolivianos, paraguaios, equatorianos… todos, menos nós, que somos europeizados. Sinto em informar, mas não somos.

Aqui, no frio, ao invés do sobretudo tipo 007, o pessoal coloca duas camisetas de manga comprida, por dentro da calça moletom, que está por baixo da calça jeans. Por cima, um suéter costurado por alguma avó desse meu Brasil; uma jaqueta jeans preta, e por cima de tudo um casaco grande, daqueles de surf. Visual que deixa qualquer um parecer que tem alguns quilos a mais do que a realidade.

Aquelas luvas de couro, do estrangeiro, do tipo que a rainha usa, são substituídas aqui, por um belo para de luvas da Hello Kitty, que podem ser adquiridas em frente a qualquer estação de metrô.

O seu Carmino, que passeia com o cão todo o dia as 16h30, precisamente, precisa colocar uma meia cinza quadricula, antes da papete azul marinho, isso pois o frio atinge principalmente seus pés.  O Juarez, da padaria, me diz “olá” com o bigode todo sujo de sopa de feijão, enquanto o carteiro da rua passa por ali normalmente, só que dessa vez, com um gorrinho da Gaviões da Fiel, para esquentar as orelhas. A Márcia da locadora me atende com o nariz mais vermelho que o do Rudolf, aquela rena do Papai Noel, e o limpa em um chumaço de papel higiênico que já está cheio de catarro. Chumaço esse, que volta e meia ela coloca no bolso, para que possa digitar alguma coisa no computador ou apertar a mão dos clientes que vem e vão, em um comprimento educado.

Enquanto isso, do outro lado do mundo, é verão, e um alemão sua em sua camisa de botões. Pensando bem, não é o frio que não é chique. Somos nós.

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Só um jogo?

Ontem, deitado no asfalto da Avenida Paulista, com a minha camisa da sorte vestida e fazendo a bandeira alvinegra como se fosse capa de super herói, me dei conta, o Corinthians era campeão da taça Libertadores da América, finalmente, de forma invicta e vencendo os chamados “bichos-papões” da competição. Mal sabíamos que o verdadeiro bicho-papão era, na realidade, o Corinthians, que poderia jogar quantos jogos fossem, seria campeão de um jeito ou de outro. É aquela velha história de que se uma coisa é pra acontecer, acontece.

Ao meu redor, centenas de corintianos libertados, como um senhor, segurando um terço na mão, ajoelhado e olhando para o céu, sussurrando “obrigado, obrigado”. Do lado dele, um trio de japoneses que tiravam fotografias de tudo e de todos, sorrindo, com faixas do Japão na cabeça; perto dali, um argentino, torcedor do River Plate, com uma faixa do Corinthians campeão 2012 no peito e olhando para os lados, visivelmente impressionado. Todos gritando, alguns chorando, outros em êxtase máximo. Do meu lado, um negrão 4×4 balançava uma bandeira também 4×4 e chorava muito, de soluçar. Um gordinho bigodudo gritava que hoje seria feriado, e o Ivan, que normalmente nem é tão fanático, subia em um caminhão de caçambas para gritar que era campeão da América.

Tudo isso embalado por uma sinfonia de buzinas, rojões, gritos, cantos de incentivo e o famoso mantra “Vai Corinthians!”. Foi fundo ein, Corinthians? Quem imaginaria? Na verdade, todos imaginavam, todos sabiam que um dia seríamos campeões. Os corintianos esperavam ansiosamente, e os rivais, temiam e secavam. Aliás, obrigado a todos que torceram contra, o título só é tão grande por causa de vocês.

Olhei para um pai de mãos dadas com seu filho de uns 6 ou 7 anos e tive dó do garoto, tão jovem e já campeão da Libertadores, que graça tem? Emoção nenhuma, não vai nem ser zoado pelos amigos na escola. Aí pensei em mim, sou jovem também, que sorte teve minha mãe e o resto do pessoal que viu tudo isso acontecer, viu o Corinthians perder e segurou por tanto tempo esse grito, para agora poder soltar com um gostinho muito mais especial.

Andei pela Paulista de ponta a ponta e nunca me senti tão dono dessa cidade. Nunca vi nada igual.

É um jogo, eu sei, mas não venha me dizer que é SÓ um jogo, por que não é, mas não é mesmo!

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