Arquivo do mês: setembro 2013

Um breve romance em 2013

– Quer que eu segure sua mala?

– Oi?

Ele, que olhava pro espelho circular do ônibus pensando que aquela imagem daria uma bela fotografia, com metade de seu rosto em primeiro plano e o cobrador babando no uniforme ao fundo, se virou para a moça, sentada a sua frente. Ela apontou para a mochila.

– Quer que eu segure?

Os dois hesitaram.

– Eu coloco no colo.

– Não, não precisa se preocupar. Não vai dar trabalho?

Ela sorriu, cruzou os braços e virou o rosto.

Ele se sentiu culpado. “Será que fui grosso?”

– Er… pode ser então.

Ele ergueu a mochila. A moça se virou, pegou-a e colocou no colo. Ele tratou de enfiar a mão, agora livre, no bolso.

Começou a fingir que não se importava, olhando pra lá e pra cá, sempre passando o olhar por ela. Era realmente bonita. Cabelo curto, mas não daqueles certinhos. Jeito meigo. Usava óculos, o que dava um ar inteligente. Não sério, só inteligente, esperta mesmo. Sorriso branco e perfeito. Se vestia bem, sem exageros, na medida. Ele queria continuar a conversa, mas não sabia como.

Ela fitava a janela sem tirar o olho. Só ela conseguia ver a imagem dele refletida ali. Um ângulo perfeito. Ele usava camisa xadrez em cima da camiseta dos Ramones, um all star surrado e uma calça esfolada na barra. Seu cabelo sugeria o horário que havia saído da cama: 20 minutos atrás. Não era muito bonito, mas ela achou. Descreveria como “uma graça”. Ela viu ele se aproximando pelo reflexo da janela. Se virou antes disso. Ele parou.

– Er… Não está muito pesado?

– O que é isso. De nada.

Ela riu. Achou fofo ele ter dito obrigado.

– Não, eu perguntei se está pesado.

– Ah, não, não, tranqüilo.

Ainda era fofo. Ela emendou.

– É que o ônibus chacoalha tanto né? Difícil ficar segurando as coisas.

Ele balançou a cabeça positivamente e disse.

– Mas você não tem tanta coisa aí.

Ela tinha um fichário, apenas.

– Eu digo, você.

Ele só tinha a mochila, agora com ela.

– O que tem?

– Muito peso.

– Não muito, ontem estava mais.

O japonês ao lado dele riu baixo. Ela se calou. Ele ficou sem jeito, mas mandou:

– Onde você pega o ônibus?

– Na Heitor Penteado.

A Heitor ainda não havia passado. Ele deixou quieto.

– E você?

– Ali no cemitério da Lapa.

Ela sorriu, mas não entendeu bem.

– Qual o seu nome?

– O que?

– Seu nome.

– Carla

– Carla de que? Quero procurar no face.

– Tenho.

– O que?

– Facebook.

– Sim, qual o seu?

– Cá Borges.

– Legal, vou te adicionar.

– Ok.

Ele anotou no celular. Estavam na Heitor Penteado. Ela se levantou e entregou a mochila. Encostaram as mãos sem querer.

– Eu desço aqui.

– Ok, obrigado viu?

– De nada…

Ela sorriu. Ele também.

– Vou te adicionar hein!

– Prazer foi meu.

Ela andou até a porta e desceu para a calçada. Tirou os fones do ouvido e os enrolou no Ipod. Ele continuou olhando para ela de dentro do ônibus. Tirou o MP3 do bolso da camisa, deu stop, e guardou na mochila. Se virou pro japonês e disse:

– Gatinha né?

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