O dono da cidade

Eu devia ter uns 10 ou 11 anos. Era um sábado comum, a não ser pelo fato de o meu pai ter me acordado às 5 da manhã. Ele fazia muito isso, e normalmente era tudo parte de um plano de redescobrimento de pontos de São Paulo que fizeram parte de sua juventude, como, justamente, aconteceu naquele sábado. Ele não se importava em me avisar ou deixar alguma dica, nem ligava se eu queria ir ou não, apenas me acordava e me mandava colocar uma roupa.

Saímos de casa lá pelas 6 da manhã e rodamos mais de uma hora de carro, o que eu achei estranho, já que normalmente nossas aventuras eram feitas a pé, de ônibus ou metrô. Não tenho ideia nem da zona da cidade em que fomos parar, muito menos do bairro em que estávamos, mas percebi que era uma região um pouco mais pobre.

Estacionamos em uma rua completamente vazia e silenciosa, cheia de casinhas. O sol estava saindo e começamos a andar por ali. Estava muito quieto, parecia um local abandonado. As paredes das casas não eram pintadas, era puro cimento coberto por pichações, e as calçadas estavam sujas, com sacos de lixo jogados por toda parte.

Eu não tinha ideia de onde estávamos indo, estava tudo fechado, não parecia haver ninguém vivo ali. Meu pai apontou para uma direção, uma porta aberta entre as casas, sem sinalização, letreiro ou qualquer coisa que indicasse o que era aquilo. Fomos até lá e entramos.

E fui na frente, a contragosto, e meu pai foi me guiando com as mãos colocadas sobre meu ombro. Era um corredor extenso, uns 10 metros iluminados apenas por uma lâmpada. Um balcão de madeira descascada o dividia ao meio. À esquerda, um senhor vestindo avental colocava pó de café em um filtro de papel. À direita, sentado em um banquinho em frente ao balcão, outro senhor, de camisa aberta e portando um dos maiores bigodes que já vi até hoje, bebia café em um copo americano e folheava o jornal, provavelmente recém saído da gráfica. Não era uma padaria, nem uma lanchonete. Era algo diferente, informal talvez. Estava tudo velho, gasto, os bancos, as paredes, o bule, o fogão, os homens.

Era visível que ali já havia sido algo maior, o espaço era grande, mas nem metade estava sendo utilizado. Meu pai disse bom dia para o senhor do jornal e se aproximou do balcão. Eu não estava entendendo nada, e torcia pro meu pai dizer alguma coisa. Acho que ele também estava um pouco confuso.

– Vocês ainda fazem churros?

O senhor que fazia café se virou e sorriu.

-Claro. Vai querer só um?

– Sim, e um café.

Meu pai me guiou até o fundo do corredor e sentamos nos últimos dois banquinhos da fileira. À nossa frente, uma panela redonda cheia de óleo, daquelas que são usadas para fritar pastéis nas feiras. O senhor se aproximou, abriu uma gaveta e retirou uma espécie de sacola triangular, com um conteúdo amarelado que eu não pude identificar (aos 10 anos eu não sabia muitas coisas). Ele segurou o saco e começou a despejar aquilo no óleo, com uma técnica impressionante. Era uma massa, que saía pela sacola e ia formando um espiral na panela, tudo milimetricamente calculado por aquele senhor. Ele terminou o caracol (imagine uma espiral bem grande, cobrindo toda a área da panela) e deixou fritando, enquanto pegava um prato plástico e enchia de açúcar. Retirou a massa do óleo, colocou para secar em uma folha de jornal (o que eu achei o máximo), e entregou para nós, junto com o prato de açúcar.

Meu pai estava inquieto, não parava de falar “olha isso” enquanto o velhinho preparava tudo.

– Isso é churros? – Perguntei

– É. O melhor. Pega um pedaço e passa aqui no prato, é açúcar e canela.

Fiz isso, várias vezes. Era maravilhoso. No fim ainda recolhi algumas migalhas sobreviventes na folha de jornal e fiquei observando o lugar, me achando o paulistano de raiz. Vi uma placa com o horário de funcionamento: das 22h às 8h. Que lugar estranho.

Meu pai agradeceu, fomos embora e nunca mais voltamos. Anos depois ele me disse que o lugar havia fechado poucos dias depois de nossa visita.

Meu pai conhecia a cidade como a palma da mão. E desde que morreu, não passou uma noite em que encostei minha cabeça no travesseiro e não me lembrei dele. Que assim seja.

 

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1 comentário

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Uma resposta para “O dono da cidade

  1. Shirley

    Muito bonito o seu relato, uma viagem no tempo e pelo visto marcou sua vida!Parabéns por expressar seu amor…..bjus!!!!!

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