Arquivo do mês: novembro 2013

Um brinde ao acaso

Mesmo querendo a blusa azul que havia visto na vitrine há uma semana, e agora estava esgotada, Suzana se contentou em levar a verde, que era “até bonitinha”.

No dia seguinte, na festa de aniversário da Mari, ela usou a roupa nova, e, mesmo a contragosto, subiu no palco quando o vocalista da banda chamou todos vestidos de verde para acompanhá-lo em sua mais nova composição: “Eu fico verde de raiva com os corruptos do Brasil”. O Gustavo, amigo da Mari que também estava no palco, se desequilibrou e empurrou uma porção de gente para baixo, inclusive a Suzana, que quebrou a perna em dois lugares e teve que ir direto pro hospital.

A médica, Dra Inês, era uma japonesa muito baixa e super simpática. As duas conversaram por horas e ela conseguiu acalmar a Suzana, que chorava de dor. Elas até descobriram que eram praticamente vizinhas e que seus pais estavam na mesma turma de hidroginástica da ACM. Aliás, foi muito bom descobrir isso, já que a Dra Inês se disponibilizou para levar e buscar os dois, pensando em Suzana, que não poderia dirigir por um tempo.

Na terça-feira, então, como não precisava levar seu pai à hidroginástica e estava de licença do trabalho, Suzana ficou em casa, assistindo TV. Mais tarde, a Mari ligou e disse que tinha ingressos para o cinema, mas só valiam para aquele dia. Ela também disse que poderia buscar a amiga, afinal, era o mínimo que ela poderia fazer após o acidente em seu aniversário. Não que fosse culpa dela, mas a Mari é dessas pessoas que sentem peso na consciência sem precisarem.

Suzana aceitou na hora. Seria bom se distrair um pouco de todo esse stress de gesso, muletas e cartelas de remédios.

No shopping, ela se sentou em um sofá enquanto esperava a colega comprar pipoca e suco (refrigerante engorda). Um rapaz sorridente sentou-se ao seu lado. Era Marcos, que curiosamente esperava Diego, seu amigo, comprar pipoca.

7 anos depois, Marcos se casou com Mari, e Suzana se casou com Diego.

25 anos depois, o filho de Marcos e Mari, Pedro, se casou com Letícia, a filha de Suzana e Diego.

Tudo porque a blusa azul estava esgotada.

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Uma sexta qualquer

– Fala Caduzão! Bora sair mais tarde? Tomar uma cervejinha?

Era sexta-feira, 18h30. Nada de feriado no sábado, dia das mães, dos pais, do avô, ou esse tipo de coisa. O que estou tentando explicar é que foi um convite normal, nada diferente. Aliás, os dois saíam às sextas, não era novidade aquilo. E outra, acho que não fazer happy-hour é que é estranho. Fim de expediente, semana cansativa, cheia de trabalho, é meio obvio até.

– Ô Julinho, foi mal cara, não vai dar pra mim.

– Ah bicho! Você já deu pra trás na outra sexta.

– Eu sei, mas é que eu estou atrasadaço na monografia. Preciso entregar o dobro do que eu tenho até quinta. Não vai dar mesmo.

– Bom, beleza então. Vou ver se o Chico ou a Nati se animam.

– Tranquilo, meu velho. Quando eu acabar isso aqui a gente sai e faz alguma bagunça por aí.

– Fechou, abraço.

– Abraço!

O Julinho sabia que o Cadu ia dar alguma desculpa, era típico dele. Ficou até com raiva por ter ligado, afinal havia prometido pra si mesmo que não iria fazer isso, que iria esperar pra ver quanto tempo aquele folgado demoraria para se lembrar de sua existência e, quem sabe, resolver ligar.

Mas no fundo ele sabia que a monografia era barra pesada mesmo. E o dia a dia no banco então? Era estressante, sem dúvida. Se esforçando bastante até que dá pra entender o Cadu, mas é chato ficar correndo atrás das pessoas toda hora. Parece que sair com você é um favor que elas fazem.

Era o que passava pela cabeça de Julinho enquanto dirigia para casa. Pensou que de lá poderia ligar para alguém que estivesse a fim de um bar ou até uma baladinha, daquelas menos agitadas mesmo, alguma em que fosse possível se ouvir minimamente.

Logo que chegou colocou uma pizza congelada no forno e sacou o celular do bolso. Foi andando até a sala, passando o dedo pelos contatos, tentando achar potenciais companheiros para a noitada. Primeiro os mais óbvios, Chico e Nati, amigos para todas as horas. Ligou pro primeiro.

– Esse gordo que nunca atende o celular!

Falou alto, um pouco bravo até. Tentou mais uma vez, outra, a última. Devia estar dormindo.

– Vamos Nati…

Ele colocou o telefone no viva-voz, largou em cima da mesa da sala e voltou para a cozinha, para checar se a pizza não estava queimando.

-Alô.

A Nati tem uma voz bonita, meio sexy, no estilo daquelas moças que falam nos alto-falantes do aeroporto ou do metrô.

-Alô!

Julinho gritou de longe e foi correndo até a mesa.

– Julio?

– Fala Nati, tudo bom?

Ele estava ofegante. Correr nove metros era um exercício extraordinário para seus padrões.

– Tudo bem aí? Está respirando estranho.

– Ah, não, é que eu estava na esteira aqui, fazendo um exercício.

A esteira era um dos enfeites mais caros do apartamento de Julinho.

– Entendi, sempre bom né?

– Claro, eu adoro. Mas, seguinte, eu estava pensando em fazer alguma coisa hoje, topa?

– Aí meu, hoje não dá, o que você queria?

É difícil entender as mulheres. Se ela não podia, porque queria saber? Acho que esse “não dá” pode variar um pouco, dependendo do programa. Aposto que se o Julinho tivesse convites pro Oscar, ou pro camarote dos Rolling Stones, a Nati ía correndo.

– Não sei, pensei em algum barzinho, ou naquela boate que a gente foi aquela vez, perto da casa da Rosana. Sei lá.

É, ele não tinha convites pro Oscar.

– Ah, entendi. É que eu estou com compromisso hoje, com aquele carinha que eu conheci em Ubatuba, sabe?

– Sei sim, vocês estão saindo?

– É a primeira vez, vamos ver no que dá!

– Entendi. Assim fico com ciúmes, hein?!

– Ah é, claro. Deixa de ser bobo Julinho.

Ele ficava mesmo com ciúmes.

– Mas então ok. Acho que vou ficar aqui em casa hoje, estou esquentando uma pizza e tenho um monte de seriados baixados no computador. Aproveite seu encontro.

– Obrigada querido. Aproveite aí também. Tenho certeza que nesse frio ficar em casa não é uma má escolha.

– Não mesmo! Hoje ninguém me tira daqui.

– Beijão Julinho!

– Beijo Nati, até mais.

Nem estava tão frio. Acho que foi só um jeito de a Nati tentar fazer com que ele não ficasse chateado. Ela estava tentando fazer aquilo que as mães fazem com os filhos quando o brinquedo dele não é tão legal comparado ao da outra criança. “Nossa, que legal esse brinquedo filho! Queria tanto ter um assim, que inveja de você, deve estar achando o máximo! Por que é o máximo!”. O Julinho tinha acabado de chamar pra sair e agora estava adorando ficar em casa? Conta outra.

A pizza começou a cheirar. Ele a tirou do forno, colocou em cima do fogão, pegou o cortador, fatiou, colocou os pedaços num prato e foi até a sala. Sentou no sofá com o prato no colo e ligou a TV.

O celular vibrou. Era um SMS do Chico. “Estou ocupado. Vou num niver mais tarde. Depois a gente se fala. Abs”. Julinho jogou o celular no outro canto do sofá. Não sabia se estava mais bravo ou chateado. Aquela pizza era horrorosa e aqueles programas de TV eram completamente imbecis.

Pensou em ligar pra alguém da turma do francês, mas logo lembrou que a maioria era casada e provavelmente estaria fazendo algum programa romântico. As opções foram acabando rapidamente, e ele se sentia mal, isolado, sem amigos. Pra maior parte das pessoas mandou mensagem, afinal, quem liga para outra pessoa hoje em dia? Ele se ateve a ligar para os mais íntimos e olhe lá. O problema é que ninguém respondia as mensagens e o tempo estava passando.

Desligou a televisão. Já era tarde, a esperança de um happy-hour bacana para aquela sexta à noite já havia ido embora. Era o momento de se dar por vencido, de tomar banho, e colocar o pijama, que é o decreto final de uma noite em casa, o campo de força que nos mantém da porta de entrada para dentro.

Após o ritual de confirmação de uma sexta-feira sem sair ele foi até o quarto e ligou seu notebook. Era hora de assistir seriados e confirmar o que já se sabia.

“Não tenho amigos”, “Nunca mais saio com esses caras também”, “Depois não adianta vir correndo até mim”. Julinho resmungava em pensamento. Os olhos marejados, o rosto triste.

Antes das séries, entrou no facebook, talvez um jeito de ficar sozinho junto com todo mundo. De encontrar pares, semelhantes que estão em casa e, obviamente, amaldiçoar aqueles que estão em algum lugar se divertindo.

Zero mensagens, duas notificações. Não-sei-quem te convidou para jogar um jogo besta, Não-sei-quem publicou em um grupo que você nunca entra. “Vamos ver o que o pessoal andou postando aqui”. Julinho foi descendo a página. Fotos de gatos, vídeos de gatos, meninas na balada, meninos na balada, alguém tirou um foto com o Toni Ramos, imagem de Nossa Senhora, alguém terminou o namoro, frase polêmica, indireta pra alguém, frase engraçadinha, e: aquela foto.

Julinho gelou e olhou sério, com atenção. Clicou para aumentar. Não acreditava naquilo, não era possível. Ele estava incrédulo, como se alguém tivesse cometido um crime bem ali, na sua frente. E era isso mesmo.

A foto mostrava todos os seus amigos, se é que ele podia chamá-los assim agora. Estavam todos ali, o Muleta, que ignorou a mensagem, a Ana, que disse semana passada que iria viajar, o Deco, que estudava sexta à noite. A Nati! Meu Deus, a Nati ali no cantinho! E quem são aqueles ali no fundo? Não, não pode ser! O Cadu e o Chico! Abraçados, levantando canecas de cerveja!

Toda a turma estava ali, reunida em algum bar. E o pior, estavam felizes, festejando, sorrindo. Para Julinho era uma facada nas costas, uma traição pior que as mais cruéis já registradas. Uma humilhação pública. “Não Julinho, não vamos sair com você, vamos sair só nós, tirar uma foto e colocar no facebook pra você ver como está legal”. É tortura! É como se ele estivesse preso, olhando os amigos comemorando o fato de ele não estar ali. Julinho foi invadido por ódio.

Verificou onde era o bar. Ali perto, dava pra ir andando. Tirou o computador do colo já decidido a ir até o bar confrontar aqueles canalhas. “Chega de ser bonzinho! Chega de palhaçada!”. Se precisasse partir pra ignorância, partiria. Era o momento de acabar de uma vez por todas com esse circo. “Aproveitem a felicidade agora! Quando eu chegar vai virar um inferno!”.

Ele gritava enquanto se trocava, ensaiava o que falaria, o que os amigos falariam, suas respostas destruidoras, a Nati chorando, o beijando em perdão. Deu passos largos, decididos. Olhar focado, punhos cerrados, cara fechada. E foi.

Chegou ao bar com a mesma atitude, procurando suas vítimas. Era um daqueles bares estilo pub inglês, meio escuro, com paredes de madeira cheias de pôsteres de musica, esporte e cerveja. As cadeiras eram diferentes umas das outras e havia uns sofás antigos espalhados por ali. No centro, o bar, era como uma ilha quadrada no meio do lugar, com os copos fixados num tipo de varal no teto e as torneiras de chope enfileiradas. Dois barmans só observavam o movimento, visivelmente cansados, mas sem muito mais trabalho. Já estava vazio.

Julinho esbarrou em uma moça, e logo sua cara fechada se transformou em um semblante mais amistoso.

– Perdão.

Embriagada, ela nem se deu conta.

– Julinho?!

Era o Cadu, vindo de longe, com uma cerveja na mão. Ele veio abraçando e falando.

– O que você esta fazendo aqui meu velho?

Julio fechou a cara de novo.

– Eu que pergunto! O que você esta fazendo aqui?

Cadu, já alto, só ergueu sua caneca de cerveja, como quem diz: “É isso que eu estou fazendo”.

– E a monografia?

– Para de ser chato cara! Pra que você me lembra isso? Eu to ferrado já, deixa eu me divertir.

Cadu deu um empurrão leve, típico de bêbado, no peito de Julio, o que só o deixou mais irritado.

– Ei Chico! O Julinho ta aqui! Olha ele aqui!

O Chico veio de longe. Estava sóbrio, aparentemente.

– E aí cara, o que te traz aqui?

– O que me traz aqui? O que traz você aqui? Eu te chamei pra sair e você disse que tinha um aniversário!

– Então, é esse.

– Como assim cara? O que toda a galera está fazendo aqui?

O Chico e o Cadu riram, e o Julinho perdeu a paciência.

– Quer saber? Vão à merda, eu vou embora daqui.

– Ô, ô, calma aí cara, tranquilo. A gente tá rindo porque foi engraçado. Ninguém sabia que vinha esse pessoal.

O Cadu falava enrolado, baforando álcool na cara do Julinho, que continuava muito irritado. Chico o puxou de lado.

– Calma cara, foi por acaso mesmo. É aniversario da minha prima. O Cadu tinha esquecido e eu liguei pra ele pra lembrar.

– Sei, mas ele disse que tinha que fazer monografia.

– Sim, ele me disse também, mas você sabe como é, o cara é apaixonado pela Gabi.

– Eu sou apaixonado pela sua prima cara! Tudo bem?

O Cadu enfiou a cara no meio dos dois, interrompendo a conversa.

Até que tudo aquilo fazia sentido, já que o Julinho não conhecia a Gabi, e não teria porque ser convidado pro aniversario dela.

– E essa galera aí? O Muleta, a Ana…

– Eles fizeram cursinho com minha prima e eu nem sabia. Coincidência né?

– É…

O Julinho estava começando a cair na real, mas logo lembrou.

– E a Nati?

Cadu e Chico riram de novo.

– A Nati chegou aqui com um cara, encontrou a gente por acaso.

– Ah.

– A gente até ia te ligar pra vir, mas ela disse que falou contigo e que você estava querendo ficar em casa pra ver uns filmes ou algo assim.

– Sim, seriados na verdade.

– Pois é cara, aí a Nati deu um pé na bunda do cara e ficou curtindo com a gente.

Julinho finalmente se animou.

– Então ela está sozinha ai?

Cadu riu. Chico apontou. Nati estava em um sofá no maior amasso com um moleque que não devia ter mais de 20 anos. Julinho fechou a cara de novo.

Ele estava errado, ninguém havia feito nada pelas suas costas.

Chico colocou a mão em seu ombro.

– Mas que pena que você chegou só agora cara, o bar vai fechar em 15 minutos.

– Tudo bem. Acho que já vou indo.

Julinho se despediu dos amigos e saiu. Pagou sua conta de entrada no bar, R$ 40,00 por meia hora e foi embora.

Caminhou com a cabeça baixa e as mãos no bolso, como quem estivesse tentando se esconder da besteira que fez. Começou a chover fraco e o celular em seu bolso vibrou. Ele pegou o aparelho, que vibrou de novo em sua mão. Eram duas novas mensagens de Nati, e o Julinho sorriu, finalmente. Abriu a primeira: “Adorei hoje, gato.Vamos repetir! Beijinho”. Abriu a segunda: “Ops, mensagem errada, ignora”. A chuva apertou.

Existem dias que é melhor ficar em casa mesmo.

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