Arquivo do mês: março 2014

Segregado aos 6

Lembro do antigo apartamento da minha avó, na rua João Moura, como se ainda o frequentasse todo domingo. Era sempre assim, os adultos almoçavam na sala e eu e minha irmã na cozinha. Se fizéssemos bagunça alguém dos “da sala” vinha e botava ordem no chiqueiro. Nosso cardápio também era diferente, mas não posso reclamar, afinal, arroz, feijão, batata e nuggets, parecia bem mais gostoso do qualquer uma daquelas coisas indecifráveis que os adultos comiam.

Quase sempre tinha sobremesa e, novamente, eu e minha irmã éramos segregados. Enquanto todos comiam no sofá, com os pratinhos equilibrados nas pernas, as crianças comiam sentadas à mesa, “pra não fazer meleca”.

Quando eu terminava minha mãe dizia: “agora leva seu prato na cozinha”. Meu pai completava: “aproveita e leva o meu também”. Às vezes algum tio ou tia pedia carona para seu pratinho ir à cozinha também, e lá ia eu, o menino que não podia comer com os adultos, mas equilibrava 5 pratos sujos de chocolate para eles. Santa sacanagem.

Depois do almoço a gente podia ficar na sala. Era minha chance de integração, e sempre que via um espaço livre no sofá ia lá me acomodar, me sentindo crescido, tentando dar minha importante contribuição nas conversas. “Pedro, sai daí, deixa seu tio sentar”. Que saco.

Eu tentava lançar algum assunto, mas nunca com sucesso. Minhas graças, que faziam relativo sucesso no colégio, na casa da minha avó não surtiam o menor efeito, e muitas vezes vinham acompanhadas de um olhar de reprovação lançado pelo meu pai. Se eu estivesse perto dele tomava um beliscão no braço, pra ficar esperto. Queria chamar atenção de algum jeito, não queria brincar na casinha da minha irmã, colorir imagens de bichos na floresta, ou jogar seus jogos de menina. Me sentia excluído.

A frase que denotava o fim da paciência comigo era: “Quer ver desenho? Eu ligo lá no quarto da vovó”. E eu ia, derrotado.

Já no terceiro episódio de Pernalonga, dormia, e só ia acordar em casa. Queria muito crescer, comer na sala, falar de futebol, e das pessoas estranhas do meu trabalho. Queria comer torta no sofá, e rir das coisas bestas que as crianças falavam.

Hoje eu posso fazer tudo isso, mas preferia ver desenho no quarto da minha avó.

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Av. Paulista com obstáculos

“Oi, você tem um minutinho?”. Outra vez! Deve ser a 421° vez!

Passar reto já é natural, não existe a ingênua possibilidade de se parar, de sequer tentar ouvir o assunto. Quando se nasce em São Paulo se aprende a fechar a cara e sair andando. Ignorar está no nosso DNA, nascemos com isso. Se muito soltamos um “desculpe, estou atrasado” (uma das frases originais de fábrica do paulistano).

Outras artimanhas a gente aprende com o tempo. Fones de ouvido são como um campo de força entre você e qualquer um que queria te abordar na rua, além de ajudarem a sua ignorada a não ser tão chata. Não fazer contato visual é importantíssimo, juntamente com a estratégia de deixar idosos passarem na sua frente na hora H. Eles gostam de conversar, é um bem que estamos fazendo.

Mas não podemos confiar nessas gangues que crescem exponencialmente em todo o Brasil. São espertos, desvendam os truques, desenvolvem novas arapucas, guerras frias, jogos de dominação psicológica. Hoje em dia são mais diretos, jogam as frases em cima de nós, sem mais nem menos. “Gosta de teatro?”, assim, na lata, sem pestanejar. É preciso inteligência, rapidez de raciocínio. “Não”, e vai embora.

“Você quer salvar a natureza?” – “Não”. Eles querem que você se sinta mal. “Tem interesse em salvar crianças com câncer?” – “Não”. Golpes baixos, socos direto no estômago, apelo emocional dos mais canalhas. Dizer não te faz parecer o maior filho da mãe da cidade, mas é necessário. No fundo é tudo parte de uma engenhosa tática dessas raposas, não se engane.

A aparência também é parte do plano. Coletinhos descolados, olha como eles são legais. A menina é jovem, bonita, simpática, sorridente, e tem cara de cachorro sem dono. O rapaz, forte, engraçadão, risonho, cabelo da moda, integrante de boy band. Ficam em lugares estratégicos, saídas de metrô, esquinas, para quando você menos esperar… “Pode responder uma pesquisa sobre vida sexual?”.

Você escapa de um grupo e dá de cara com outro, não se pode mais andar em paz.

Lanço uma ideia: Que cada cidadão só possa ser abordado por tais gangues uma vez a cada dois dias. Como uma cota. Foi abordado, recebe um adesivo de “não perturbe” com determinada validade. Se o objetivo da abordagem, no entanto, for a distribuição de brindes ou comida grátis, então tudo bem, está liberado.

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