Av. Paulista com obstáculos

“Oi, você tem um minutinho?”. Outra vez! Deve ser a 421° vez!

Passar reto já é natural, não existe a ingênua possibilidade de se parar, de sequer tentar ouvir o assunto. Quando se nasce em São Paulo se aprende a fechar a cara e sair andando. Ignorar está no nosso DNA, nascemos com isso. Se muito soltamos um “desculpe, estou atrasado” (uma das frases originais de fábrica do paulistano).

Outras artimanhas a gente aprende com o tempo. Fones de ouvido são como um campo de força entre você e qualquer um que queria te abordar na rua, além de ajudarem a sua ignorada a não ser tão chata. Não fazer contato visual é importantíssimo, juntamente com a estratégia de deixar idosos passarem na sua frente na hora H. Eles gostam de conversar, é um bem que estamos fazendo.

Mas não podemos confiar nessas gangues que crescem exponencialmente em todo o Brasil. São espertos, desvendam os truques, desenvolvem novas arapucas, guerras frias, jogos de dominação psicológica. Hoje em dia são mais diretos, jogam as frases em cima de nós, sem mais nem menos. “Gosta de teatro?”, assim, na lata, sem pestanejar. É preciso inteligência, rapidez de raciocínio. “Não”, e vai embora.

“Você quer salvar a natureza?” – “Não”. Eles querem que você se sinta mal. “Tem interesse em salvar crianças com câncer?” – “Não”. Golpes baixos, socos direto no estômago, apelo emocional dos mais canalhas. Dizer não te faz parecer o maior filho da mãe da cidade, mas é necessário. No fundo é tudo parte de uma engenhosa tática dessas raposas, não se engane.

A aparência também é parte do plano. Coletinhos descolados, olha como eles são legais. A menina é jovem, bonita, simpática, sorridente, e tem cara de cachorro sem dono. O rapaz, forte, engraçadão, risonho, cabelo da moda, integrante de boy band. Ficam em lugares estratégicos, saídas de metrô, esquinas, para quando você menos esperar… “Pode responder uma pesquisa sobre vida sexual?”.

Você escapa de um grupo e dá de cara com outro, não se pode mais andar em paz.

Lanço uma ideia: Que cada cidadão só possa ser abordado por tais gangues uma vez a cada dois dias. Como uma cota. Foi abordado, recebe um adesivo de “não perturbe” com determinada validade. Se o objetivo da abordagem, no entanto, for a distribuição de brindes ou comida grátis, então tudo bem, está liberado.

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3 Comentários

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3 Respostas para “Av. Paulista com obstáculos

  1. Pedro,
    Estudei contigo na Cásper Líbero durante 4 anos. Posso contar nos dedos quantas raras vezes nos falamos. Confesso que algo sempre me intrigou em você. Tentei alguma aproximação ou outra, mas acho que fui pouco insistente, ou talvez pouco interessante para você.
    De qualquer maneira, fica aqui meu elogio. Vi esse seu post no facebook e acabei lendo praticamente o blog inteiro essa tarde. Texto atrás de texto. Não sabia que você alimentava este blog.
    Você escreve muito maravilhosamente bem. Prende, é leve, criativo e fluido.
    Parabéns. Isso me faz querer te conhecer mais, ou talvez apenas ficar presa às tuas palavras mesmo. Parece mais divertido assim. Sempre preferi as relações platônicas mesmo.
    Tudo de bom, Pedro.
    Beijos

  2. Outro dia ouvi um “pesquisa não é assalto!”. Não sabia se dava risada ou ficava com muita raiva…

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