Segregado aos 6

Lembro do antigo apartamento da minha avó, na rua João Moura, como se ainda o frequentasse todo domingo. Era sempre assim, os adultos almoçavam na sala e eu e minha irmã na cozinha. Se fizéssemos bagunça alguém dos “da sala” vinha e botava ordem no chiqueiro. Nosso cardápio também era diferente, mas não posso reclamar, afinal, arroz, feijão, batata e nuggets, parecia bem mais gostoso do qualquer uma daquelas coisas indecifráveis que os adultos comiam.

Quase sempre tinha sobremesa e, novamente, eu e minha irmã éramos segregados. Enquanto todos comiam no sofá, com os pratinhos equilibrados nas pernas, as crianças comiam sentadas à mesa, “pra não fazer meleca”.

Quando eu terminava minha mãe dizia: “agora leva seu prato na cozinha”. Meu pai completava: “aproveita e leva o meu também”. Às vezes algum tio ou tia pedia carona para seu pratinho ir à cozinha também, e lá ia eu, o menino que não podia comer com os adultos, mas equilibrava 5 pratos sujos de chocolate para eles. Santa sacanagem.

Depois do almoço a gente podia ficar na sala. Era minha chance de integração, e sempre que via um espaço livre no sofá ia lá me acomodar, me sentindo crescido, tentando dar minha importante contribuição nas conversas. “Pedro, sai daí, deixa seu tio sentar”. Que saco.

Eu tentava lançar algum assunto, mas nunca com sucesso. Minhas graças, que faziam relativo sucesso no colégio, na casa da minha avó não surtiam o menor efeito, e muitas vezes vinham acompanhadas de um olhar de reprovação lançado pelo meu pai. Se eu estivesse perto dele tomava um beliscão no braço, pra ficar esperto. Queria chamar atenção de algum jeito, não queria brincar na casinha da minha irmã, colorir imagens de bichos na floresta, ou jogar seus jogos de menina. Me sentia excluído.

A frase que denotava o fim da paciência comigo era: “Quer ver desenho? Eu ligo lá no quarto da vovó”. E eu ia, derrotado.

Já no terceiro episódio de Pernalonga, dormia, e só ia acordar em casa. Queria muito crescer, comer na sala, falar de futebol, e das pessoas estranhas do meu trabalho. Queria comer torta no sofá, e rir das coisas bestas que as crianças falavam.

Hoje eu posso fazer tudo isso, mas preferia ver desenho no quarto da minha avó.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s