Arquivo do mês: maio 2014

De carona

Naquele momento, nada passa por sua cabeça. Os fones estão enfiados nas orelhas, a música toca no último volume, mas é como se fosse um som ambiente. Poderia ser qualquer canção, até mesmo um de seus documentários em áudio, não importa, ele não está prestando atenção. Olha para o piso de hospital sujo que tem nos novos trens do metrô, se levanta instintivamente, e vai para sua porta, sabendo que aquela é a certa.

Olha para o lado e percebe o mundo, se dando conta que não prestava atenção em nada. A TV dá o horóscopo de Aquário. Tempo de recolhimento, de buscar novas opções, novos começos. Muitas vezes, as melhores coisas estão ao nosso lado e demoramos a nos dar conta. Busque senti… Ele olha para o outro lado, desinteressado. Vê, na outra porta, uma menina de calça azul claro e moletom cinza de capuz.

Ele enfia a mão no bolso e abaixa o volume no Ipod, que é o que faz sempre que vê uma moça bonita, talvez na esperança que ela inicie uma conversa, ou mesmo que ele consiga pescar alguma coisa que sirva para começar um assunto.

Não olhou mais para ela depois do rápido olhar. Encara a porta bem de perto e finge cantarolar a canção que toca em seu ouvido. O trem para na plataforma e ele sai em disparada na direção da escada rolante, sem olhar para trás. Passa a catraca e segue pelo corredor da estação com passos firmes.

Percebe o chão molhado e se dá conta que é possível que esteja chovendo. Essa informação somada a sua falta de qualquer coisa que o proteja da água fazem seu rosto embrulhar.

A menina do trem aparece ao seu lado, andando. Ele não olha, mas sabe que é ela. Diminui a passada e a deixa seguir na frente. Observa um tênis descolado, da Adidas, todo prateado, e um guarda-chuva lilás em sua mão direita. Ela levanta o cabelo como se estivesse com calor, revelando a nuca. Ele imagina se aquilo é uma forma de chamar a atenção dele, mas logo descarta a fantasia. Não a deixa seguir muito na frente e chegam à saída da estação praticamente ao mesmo tempo.

Ela desenrola o guarda-chuva e o abre, enquanto ele se encosta numa pilastra e olha para o céu com um jeito de “vou ficar aqui esperando passar”.

Ela sai da área coberta, começa a seguir pela calçada e se vira para ele: “Quer vir?”.

Nesse momento seu Ipod já estava no volume zero, e ele pode ouvir claramente o que a menina havia dito. Foi a primeira vez que viu o rosto dela. Nariz fino e pontudo, boca grande, sorriso bonito, olhos bem pretos. O capuz do casaco cobria metade da testa, e seu cabelo pintado de loiro escorria para os dois lados.

Ele pegou o guarda-chuva, afinal era mais alto, e trocaram de lado. Ela segurou em seu braço e encostou a cabeça em seu ombro. Nunca tinham se visto, mas foi assim. Desceram a rua com passadas sincronizadas, como se tivessem ensaiado, desviando das poças d’água, e dos ônibus que faziam ondas e molhavam a barra da calça dos que esperavam no ponto.

Disse que ficava naquela esquina e agradeceu a carona. Ela riu, achando legal ele ter usado aquela palavra. “Carona”. Eles trocaram nomes e falaram que estavam sempre naquele horário, naquele metrô. Combinaram de ficar no primeiro vagão sempre, e se despediram com um beijo na bochecha, pedindo para ser na boca.

“Oi? Quer vir? Cabe aqui…”

“Ah não, valeu, eu estou de carona.”

Uma japonesa cheia de sacolas de mercado pulou para dentro do guarda-chuva da menina e elas seguiram viagem. Ainda pode ouvir: “A senhora quer ajuda para carregar?”.

Ficou lá esperando a chuva passar para voltar para casa.

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A bola é a latinha e o gol é o portão

Apesar da lista de convocados da seleção brasileira para a Copa do Mundo já ter sido revelada, o técnico Felipão ainda chamará sete jogadores para compor uma lista de espera, caso algum dos vinte e três primeiros não possa ir ao mundial. Devo dizer, no entanto, que mesmo assim creio que minhas chances de realizar meu sonho de garoto e vestir a camisa canarinho são próximas a zero. Digo isso com um pouco de pesar, pois muitos são prova viva do esforço que fiz todos esses anos.

Começou de forma natural, como muitos começam. Nos natais e aniversários era presenteado com bolas, chuteiras e camisetas. Descia no subsolo do prédio e imaginava que aquilo era o Pacaembu. Às vezes narrava os lances com precisão cirúrgica, sempre copiando os meus favoritos da televisão. Quando subia, colocava meus bonecos dos Power Rangers em cima da cama e os fazia jogar bola. Não tinha nada de porrada, explosão ou megazord, era o bom e velho Bem VS Mal, quem ganhar fica.

No colégio ia de chuteira e bermuda de moletom. Sempre, até o terceiro ano do ensino médio. Queria jogar no recreio, na educação física e em qualquer tempo livre. Se o professor faltasse então, era o paraíso, uma hora da quadra só pra gente. Em compensação, se chovia a tristeza era grande.

Chegando em casa, deixava a lição de lado e ficava jogando uma bolinha pula-pula na parede e saltando na cama para defendê-la. Cada espalmada era um grito de quem quer que fosse o goleiro do Corinthians na época. Cada furada era alguma coisa espatifada no chão.

A sala de estar era mais ampla. As cadeiras eram zagueiros que nunca fechavam as pernas, a parede do corredor era o melhor batedor de escanteios da região, e a mesa central foi provavelmente o gol que mais balancei na vida. Janelas e vasos, apesar de alguns sustos e frios na espinha, seguiram intactos por todos esses anos.

Acompanhava meu pai em todas as peladas que frequentava. A primeira que me lembro era em uma quadra de areia. Enquanto ele jogava com seu time, eu ia para as quadras vazias e sem iluminação e chutava a bola no gol sem goleiro. Sempre me dava desafios: Trave esquerda, trave direita, travessão, rasteira no canto esquerdo, chapa no ângulo, e assim ia. Depois ele mudou para quadras de Society, foram umas oito ao longo dos anos, todas com um horário ingrato, sábados às 8h da manhã, teste de amor ao jogo.

Mas naquela altura eu não precisava mais de testes. Já havia rasgado milhares de folhas do caderno da escola para construir bolas improvisadas e jogar “rolinho porrada” com os amigos. Já havia aberto buracos em todas as minhas calças, mesmo as que minha mãe reforçava com joelheiras de couro. Também tinha tomado três pontos na cabeça e vinte na perna. Tinha quebrado o braço, o pé, o dedo. Sem contar as inúmeras paulistinhas e boladas em lugares indevidos que recebi. Joguei artilheiro, melê, gol a gol, linha, driblinho, bobinho, cruzamento, e mais todas as invenções que podem existir. Joguei na rua, no campo, na praia, no salão. Chorei quando perdi e me achei o dono do pedaço quando venci.

E nunca precisei de uma bola oficial e de um gramado do Maracanã. Nunca precisei estar na lista dos convocados, de um contrato milionário e de uma camisa 10. Tendo algo para chutar, o resto que se dane.

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