A bola é a latinha e o gol é o portão

Apesar da lista de convocados da seleção brasileira para a Copa do Mundo já ter sido revelada, o técnico Felipão ainda chamará sete jogadores para compor uma lista de espera, caso algum dos vinte e três primeiros não possa ir ao mundial. Devo dizer, no entanto, que mesmo assim creio que minhas chances de realizar meu sonho de garoto e vestir a camisa canarinho são próximas a zero. Digo isso com um pouco de pesar, pois muitos são prova viva do esforço que fiz todos esses anos.

Começou de forma natural, como muitos começam. Nos natais e aniversários era presenteado com bolas, chuteiras e camisetas. Descia no subsolo do prédio e imaginava que aquilo era o Pacaembu. Às vezes narrava os lances com precisão cirúrgica, sempre copiando os meus favoritos da televisão. Quando subia, colocava meus bonecos dos Power Rangers em cima da cama e os fazia jogar bola. Não tinha nada de porrada, explosão ou megazord, era o bom e velho Bem VS Mal, quem ganhar fica.

No colégio ia de chuteira e bermuda de moletom. Sempre, até o terceiro ano do ensino médio. Queria jogar no recreio, na educação física e em qualquer tempo livre. Se o professor faltasse então, era o paraíso, uma hora da quadra só pra gente. Em compensação, se chovia a tristeza era grande.

Chegando em casa, deixava a lição de lado e ficava jogando uma bolinha pula-pula na parede e saltando na cama para defendê-la. Cada espalmada era um grito de quem quer que fosse o goleiro do Corinthians na época. Cada furada era alguma coisa espatifada no chão.

A sala de estar era mais ampla. As cadeiras eram zagueiros que nunca fechavam as pernas, a parede do corredor era o melhor batedor de escanteios da região, e a mesa central foi provavelmente o gol que mais balancei na vida. Janelas e vasos, apesar de alguns sustos e frios na espinha, seguiram intactos por todos esses anos.

Acompanhava meu pai em todas as peladas que frequentava. A primeira que me lembro era em uma quadra de areia. Enquanto ele jogava com seu time, eu ia para as quadras vazias e sem iluminação e chutava a bola no gol sem goleiro. Sempre me dava desafios: Trave esquerda, trave direita, travessão, rasteira no canto esquerdo, chapa no ângulo, e assim ia. Depois ele mudou para quadras de Society, foram umas oito ao longo dos anos, todas com um horário ingrato, sábados às 8h da manhã, teste de amor ao jogo.

Mas naquela altura eu não precisava mais de testes. Já havia rasgado milhares de folhas do caderno da escola para construir bolas improvisadas e jogar “rolinho porrada” com os amigos. Já havia aberto buracos em todas as minhas calças, mesmo as que minha mãe reforçava com joelheiras de couro. Também tinha tomado três pontos na cabeça e vinte na perna. Tinha quebrado o braço, o pé, o dedo. Sem contar as inúmeras paulistinhas e boladas em lugares indevidos que recebi. Joguei artilheiro, melê, gol a gol, linha, driblinho, bobinho, cruzamento, e mais todas as invenções que podem existir. Joguei na rua, no campo, na praia, no salão. Chorei quando perdi e me achei o dono do pedaço quando venci.

E nunca precisei de uma bola oficial e de um gramado do Maracanã. Nunca precisei estar na lista dos convocados, de um contrato milionário e de uma camisa 10. Tendo algo para chutar, o resto que se dane.

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