De carona

Naquele momento, nada passa por sua cabeça. Os fones estão enfiados nas orelhas, a música toca no último volume, mas é como se fosse um som ambiente. Poderia ser qualquer canção, até mesmo um de seus documentários em áudio, não importa, ele não está prestando atenção. Olha para o piso de hospital sujo que tem nos novos trens do metrô, se levanta instintivamente, e vai para sua porta, sabendo que aquela é a certa.

Olha para o lado e percebe o mundo, se dando conta que não prestava atenção em nada. A TV dá o horóscopo de Aquário. Tempo de recolhimento, de buscar novas opções, novos começos. Muitas vezes, as melhores coisas estão ao nosso lado e demoramos a nos dar conta. Busque senti… Ele olha para o outro lado, desinteressado. Vê, na outra porta, uma menina de calça azul claro e moletom cinza de capuz.

Ele enfia a mão no bolso e abaixa o volume no Ipod, que é o que faz sempre que vê uma moça bonita, talvez na esperança que ela inicie uma conversa, ou mesmo que ele consiga pescar alguma coisa que sirva para começar um assunto.

Não olhou mais para ela depois do rápido olhar. Encara a porta bem de perto e finge cantarolar a canção que toca em seu ouvido. O trem para na plataforma e ele sai em disparada na direção da escada rolante, sem olhar para trás. Passa a catraca e segue pelo corredor da estação com passos firmes.

Percebe o chão molhado e se dá conta que é possível que esteja chovendo. Essa informação somada a sua falta de qualquer coisa que o proteja da água fazem seu rosto embrulhar.

A menina do trem aparece ao seu lado, andando. Ele não olha, mas sabe que é ela. Diminui a passada e a deixa seguir na frente. Observa um tênis descolado, da Adidas, todo prateado, e um guarda-chuva lilás em sua mão direita. Ela levanta o cabelo como se estivesse com calor, revelando a nuca. Ele imagina se aquilo é uma forma de chamar a atenção dele, mas logo descarta a fantasia. Não a deixa seguir muito na frente e chegam à saída da estação praticamente ao mesmo tempo.

Ela desenrola o guarda-chuva e o abre, enquanto ele se encosta numa pilastra e olha para o céu com um jeito de “vou ficar aqui esperando passar”.

Ela sai da área coberta, começa a seguir pela calçada e se vira para ele: “Quer vir?”.

Nesse momento seu Ipod já estava no volume zero, e ele pode ouvir claramente o que a menina havia dito. Foi a primeira vez que viu o rosto dela. Nariz fino e pontudo, boca grande, sorriso bonito, olhos bem pretos. O capuz do casaco cobria metade da testa, e seu cabelo pintado de loiro escorria para os dois lados.

Ele pegou o guarda-chuva, afinal era mais alto, e trocaram de lado. Ela segurou em seu braço e encostou a cabeça em seu ombro. Nunca tinham se visto, mas foi assim. Desceram a rua com passadas sincronizadas, como se tivessem ensaiado, desviando das poças d’água, e dos ônibus que faziam ondas e molhavam a barra da calça dos que esperavam no ponto.

Disse que ficava naquela esquina e agradeceu a carona. Ela riu, achando legal ele ter usado aquela palavra. “Carona”. Eles trocaram nomes e falaram que estavam sempre naquele horário, naquele metrô. Combinaram de ficar no primeiro vagão sempre, e se despediram com um beijo na bochecha, pedindo para ser na boca.

“Oi? Quer vir? Cabe aqui…”

“Ah não, valeu, eu estou de carona.”

Uma japonesa cheia de sacolas de mercado pulou para dentro do guarda-chuva da menina e elas seguiram viagem. Ainda pode ouvir: “A senhora quer ajuda para carregar?”.

Ficou lá esperando a chuva passar para voltar para casa.

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