Arquivo do mês: agosto 2014

O passarinho

Dia desses, andando do metrô para a minha casa, vi no chão um passarinho morto, o que não seria nada muito novo, já que não é uma cena que nunca havia visto anteriormente. A diferença, na verdade, era que o estado do bicho era muito feio, como em um filme B de terror, com muito sangue e cabeças explodidas.

Olhei para aquilo e segui meu caminho, mas com a imagem cutucando minha cabeça, me tirando do normal. Tudo que eu pensava de diferente era interrompido pelo cadáver da ave esmagado no asfalto, com as penas espalhadas, o bico estraçalhado, os órgãos destruídos e o sangue seco, impresso na rua. Pode parecer apelativo, mas foi o que ficou marcado em mim.

No dia seguinte, passando pelo mesmo local, notei que nada havia mudado na cena, e o cheiro estava mais forte. Cheguei mais perto, talvez para tentar notar algo que não havia visto da primeira vez, ou talvez em uma daquelas atitudes masoquistas, de querer ver o que te aflige mais de perto, não deixar fugir. Meu estômago embrulhou de novo. Me deu um nó na garganta e comecei a imaginar aquele pássaro em seus dias bons.

Devia ser bonito, não lindo, mas apresentável. Voava por ai, livre, bebericando em potinhos de água que velhinhas colocam em suas janelas. Pode ser que tenha cantado na minha algum dia, quem sabe. Aí vem um pneu de ré e passa por cima de sua cabeça, lhe tirando a vida de uma hora para a outra, o deixando ali mesmo, sem ninguém.

Aquilo me pegou em cheio e eu não conseguia me livrar daquele pensamento. Minha concentração para as coisas corriqueiras, que já era baixa, se tornou ainda pior. Comia por comer, saía por sair, mas nada me fazia parar de pensar no passarinho no asfalto. Comecei a mudar a rota de onde eu ia só para passar por ele todos os dias. Normalmente estava tudo a mesma coisa, ou pior. Nunca melhor. E ficava ali, apodrecendo, quase que se misturando com a sujeira e as pedras da rua.

Me senti ridículo por estar dando tanta importância para aquilo. Um bicho morto no meio da rua, como se isso não acontecesse todos os dias. Mas mesmo assim, sabendo que não havia sentido em me lamentar, eu continuava na mesma, encarando aquilo com uma tragédia. As pessoas passavam e nem se importavam. Os que viam, logo viravam a cara, e a maioria, que não via, quase pisava naquela maçaroca em decomposição.

E foi isso por um bom tempo, não sei nem dizer quanto. Mas um dia, no mesmo trajeto entre o metrô e minha casa, notei que não havia mais nada ali. A carcaça inteira tinha sido removida e as manchas de sangue não estavam no chão, provavelmente por intervenção de algum gari, ou resultado da chuva forte do dia anterior. Mas, de qualquer jeito, a rua estava como antes.

Aquele passarinho que esteve tanto tempo em situação lamentável, esmagado no meio-fio, havia desaparecido. Obviamente, não consegui tirar a imagem da cabeça, mas isso deve ser uma questão de tempo também. E acho que deve ser assim que funciona. Com o tempo, chega um limpador e varre tudo, como se o bicho nunca estivesse estado lá.

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