Mama

Ultimamente tenho feito o famoso exercício de tentar buscar minha memória mais antiga dentro da cachola. Impossível, claro. Por mais que me venham situações e imagens borradas, nunca vou ter a certeza se aquele tombo aconteceu aos 6 ou aos 7 anos de idade. Aquele Natal então, improvável que me lembre se foi o de 1994 ou o de 1995.

Dito isso, creio que consegui desenterrar um baú que estava isolado em algum canto escuro do meu cérebro, onde eu nunca havia estado antes. Provavelmente nele, estão minhas lembranças com a data mais antiga, mas, reitero, não posso afirmar.

Os borrões são da minha primeira escola, ou devo dizer, berçário. Se chamava Viramundo, e ficava no encontro entre a Av. Doutor Arnaldo, a Rua da Consolação e a Av. Paulista. Eu chamo o lugar de Praça dos Arcos, mas não sei se é oficialmente nomeada assim.

A única coisa que me lembro realmente do espaço, é a escadaria em caracol que dava para a sala das crianças mais velhas, onde minha irmã ficava e eu nunca podia ir. O resto das imagens são construções que eu fiz a partir das fotografias que tenho até hoje.

Minha turma devia ter uns 10 alunos, e nossas tarefas se dividiam entre dormir em colchonetes, colar coisas em cartolinas, tomar banho de mangueira na quadra e comer nuggets em formato de aviões e dinossauros.

Isso tudo é imagem solta, fragmentos, fotos fincadas com um alfinete em minha cabeça. O que me lembro concretamente, é do dia que fomos à um museu pela primeira vez.

A exposição era de Fernando Botero, um artista colombiano que tinha como marca fazer pessoas gordas e imagens redondas. Achei incrível. Ficava olhando para as obras e achando tudo muito engraçado. A imagem da escultura da mulher, toda colorida, com os peitões quase pulando para fora, está guardada comigo até hoje.

Na volta ao berçário, como estávamos em período de alfabetização, fomos estimulados a tentar escrever palavras que tinham relação com a exposição. A Tia Elaine, minha primeira professora, escreveu na lousa a palavra “MAMA”, que é o nome das mulheres que Botero retratava.

Ela distribuiu alguns cartões e pediu para a gente escrever aquilo. Demorei minutos, copiando com esmero. As letras eram simétricas, o que tornava a tarefa um pouco mais fácil. “M” são dois “ums” dando um beijo. O “A” é um triângulo com duas perninhas. Agora tudo de novo, “M-A-M-A”, pronto! Pronto! Tia Elaine! Tia Elaine, consegui! Consegui!

Ela abriu um sorriso, me deu um abraço e colou o cartão no mural da classe, para todo mundo ver. Tomem essa, crianças atrasadas. Se eu soubesse o que era um superdotado naquela época, com certeza me acharia um. Foi a primeira palavra que escrevi na vida.

“Agora, e se forem duas ou mais, ein? Como a gente faz o plural, Pepe? Lembra da cobrinha?”

Pô Tia Elaine, aí você me quebra.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s