Arquivo do mês: novembro 2014

Piolhos

No momento que passei pela porta e pisei pela primeira vez no local, senti o cheiro de urina misturada com álcool e vômito entrando pelas minhas narinas. Baixei a cabeça e continuei, procurando não dar na cara meu status de turista. Ao meu lado, meus dois amigos, Walter e Ivan, também seguiam sem esboçar reação.

Logo reparamos o óbvio: Todos ali estavam embriagados. O tiozinho que carregava um violão surrado e tinha litros de suor pingando pelo bigode grisalho, era quem puxava o coro de “chi-chi-chi-le-le-le!” do restante do bar. Repeti as palavras, tentando o máximo parecer enturmado, mas obviamente, sem o mínimo sucesso.

Os ambientes não pareciam ter muita relação. O corredor onde havia a cantoria da entrada era vizinho de uma sala onde famílias jantavam em paz, conversavam baixo e ficavam em seus lugares, sem alarde. Os garçons passavam voando de um lado para o outro, ignorando totalmente a presença de três brasileiros perdidos. Nada fazia sentido.

O que nos levou até ali, na verdade, havia sido uma série de acasos iniciados na noite anterior, nossa primeira em Santiago. O hostel oferecia meia hora de cerveja grátis, o que não estava nos nossos planos, e foi o ponto de partida de tudo.

O que tínhamos pensado, a princípio, era dar um pulo na cidade e voltar cedo para descansar. O plano foi substituído por 6 horas de aulas de forró para gringos e uma mesa repleta de cascos de cerveja vazios e copos de pisco sour consumidos em minutos.

As aulas de dança eram ministradas pelos piores professores do Brasil: Nós. Enganávamos bem, no fim das contas, mas tudo isso nos fez acordar um pouco mais tarde do que o planejado no dia seguinte.

Nossa ida a Valparaíso entrou pelo cano, e decidimos fazer um free tour pela cidade, o que valeu bastante a pena. No fim do passeio, nosso guia, Martín, nos indicou um bar típico, muito bom e que era de visita indispensável. Também disse que deveríamos experimentar uma bebida chamada “terremoto”, e nos deu dois conselhos: Não abusar do drink, que, segundo ele “emborrachava mucho”; e não ir a noite, que poderia ser perigoso.

Fomos naquela noite. Estávamos ali, no meio do salão, sobrando, perdidos, e com a informação extra que naquele horário o ambiente poderia ser hostil.

Andamos até o fim, procurando mesas. No último salão, um gorfo coberto por serragem deixava o cheiro ainda pior. Voltamos para o meio e decidimos pedir os terremotos e ficar em pé. O balcão do bar, como a madeira descascando evidenciava, era mais velho que a maioria dos uísques expostos numa prateleira atrás do atendente. Era um chileno gordo, com manchas de suor na camiseta amarelada e esgarçada no pescoço. Tinha na cabeça um boné preto virado para trás, e empunhava um facão enorme, de cabo branco e lâmina suja.

Nos aproximamos e tentamos pedir a bebida, mas a confusão era imensa e nosso espanhol era nulo. Insistimos mais um pouco, até descobrir que era preciso esperar um momento exato, quando tudo era servido ali mesmo. Pagamos no caixa ao lado e esperamos. 15 mil pesos chilenos, ou pouco menos de 30 reais por três terremotos.

O barman abriu espaço e espalhou uma porção de copões de plástico no balcão. Buscou uma enorme caixa aos seus pés e enfiou com força uma colherzona para dentro. Foi tirando icebergs de sorvete e jogando displicentemente nos copos, que sambavam em cima da madeira, mas não caíam. Depois, pegou uma garrafa de uns 10 litros e foi despejando seu conteúdo em cima de tudo, sem nem olhar o que estava fazendo. Abriu outra garrafa com um golpe seco do facão e voltou à tarefa. O cheiro de álcool era forte, até porque o líquido transparente batia no sorvete e se espalhava pelo balcão e pelo chão. Cuidado e esmero estavam fora de cogitação naquela operação.

Ele virou para nós e perguntou algo indecifrável numa primeira vez. Nos guiamos pelos outros clientes. Quando alguém respondia algo, um tipo de xarope era jogado dentro de cada copo. Isso fazia a bebida ficar rosada ou marrom, então entendemos que tínhamos que optar entre terremotos doces ou amargos.

Por fim, conseguimos o que queríamos e encostamos em uma parede com as bebidas nas mãos. Aquilo estava uma bagunça. De um lado a cantoria descontrolada, do outro, casais se paquerando e turmas gritando baboseiras em espanhol. Jovens, velhos, homens, mulheres, todos bêbados Paredes pixadas com inúmeros tipos de mensagens cobriam o bar, que trazia bandeiras do Chile e mensagens em placas de ferro. A que mais nos chamou a atenção pedia para que os clientes fizessem o favor de não cuspir ali.

Não queríamos ser percebidos, mas estávamos falando em português no meio do corredor. Era um pouco difícil.

Uma mulher pediu para tirar foto com o Ivan. Aparentemente, o motivo era a semelhança dele com o irmão da moça. Ao nosso lado, um homem que havia sido impedido pelo garçom de beber mais, devido a seu estado etílico, enfiou a mão na mesa e derrubou uma dúzia de terremotos no chão, o que nos fez virar a cara e torcer para que ele não fosse falar conosco. Um chileno de, talvez 18 ou 19 anos, começou a puxar conversa sobre basquete. Não entendemos meia palavra que ele falava e só concordamos e rimos quando parecia ser preciso.

Logo reparamos o óbvio: Nós também estávamos embriagados.

Os copos de terremoto estavam na metade e nossas cabeças já não pensavam igual. Pedimos empanadas e fomos diminuindo o ritmo. O sorvete, já derretido, se misturava com o vinho engarrafado e o xarope, produzindo um tipo de poção mágica emborrachadora de chilenos e turistas metidos a espertos. As empanadas eram espetaculares e, provavelmente, foi o que nos salvou da completa embriaguez.

Um pouco depois, quando percebemos três caras nos encarando de um jeito nada amigável, decidimos dar o fora dali. Cruzamos o grupo que cantava alto no meio do salão e fomos embora. Demos passos tortos pela porta e saímos, deixando para traz o letreiro luminoso que piscava em vermelho: “La Piojeira”.

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