Arquivo do mês: dezembro 2014

Tchau

Os desenhos das pedras pretas e brancas que cobrem o corredor de entrada do prédio lembram os famosos calçadões cariocas. Flip, flap, flip, flap. Luana vem arrastando as sandálias num passo lento, quase querendo ir para trás.

Flip… Flap… Flip… A sola lambe a pedra e faz um ruído ritmado. João vem ao lado, acompanhando a vagarosa valsa. Desamarrados, os cadarços do All Star preto lembram as tranças de uma menina num balanço de parque, indo e voltando, uma hora aqui e outra ali.

Flip, flap. Um band-aid no joelho esquerdo dela cobre o machucado feito na noite anterior, na quina da mesinha da sala, quando não havia mais luz penetrando a janela lateral. A barra do vestido florido, no fim das coxas, levanta a cada sopro mais forte do vento. O lenço que ela amarra abaixo da cintura, impede que algo a mais seja revelado. As mãos dadas suam por causa do bafo de fim de dia.

O cinto dele é velho, surrado. Mesmo assim faz bem seu trabalho, impedindo que o jeans escorregue e revele a cueca, igualmente velha e surrada, além de furada. Sua mão direita, livre, espreme com força um bilhete escrito em uma folha de caderno escolar.

Flip, flap, flip, flap.

A mão esquerda dela, também livre, leva o maço de flores que ganhou. Margaridas. Flip… Flap… No colo, repousa o escapulário da avó falecida. O coração bate com vontade de sair. Os dois batem assim, na verdade. Um nó em cada garganta.

O cabelo castanho toca os ombros. No direito, o beija-flor tatuado com autorização relutante dos pais é parcialmente coberto pelos fios despenteados. A boca só abre quando a respiração do nariz, enfeitado com um piercing prateado, hesita. Ela o olha por um segundo. Flip, flap.

Seu queixo, coberto por uma barba recém nascida, treme devagar. Os dentes de cima mordem a parte inferior do lábio, arrancando pequenos pedaços de pele que logo são cuspidos no chão. O nariz, vermelho da rinite, inspira e expira, como aprendeu no médico.

A lágrima que escorre pelo olho de Luana contorna a parte de fora do nariz. Do outro lado, o pingo desce a bochecha e se atira do precipício. Flip, flap. Eles param.

Viram os corpos e se olham. O abraço dura cinco minutos. O beijo, três. Ele sai sem olhar para trás e as mãos se desgrudam. Ela observa até ele virar a esquina e volta para dentro com rapidez.

Flip, flap, flip, flap, flip, flap, flip, flap, flip, flap, flip, flap, flip, flap.

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Toda nudez será noticiada

O vírus que teve início no sul do Brasil vem-se alastrando com velocidade assustadora. Uma nova febre atinge nosso país e não dá sinais de ser algo passageiro, e sim de que vai se estender por um bom tempo. Não me refiro aos sorvetes mexicanos, as populares paletas. Muito menos aos cupcakes e frozen yogurts de outrora.

A moda agora é outra, é comportamental. A tendência que vem com tudo nesta primavera/verão 2015 é a nudez. Ficar peladão e sair por aí numa boa.

Não é uma maravilha? Um movimento lindo? Que se tirem as roupas sim! Nunca antes na história deste país o botão do ‘foda-se’ foi acionado de maneira tão sublime. Do Oiapoque ao Chuí pessoas têm se livrado das amarras e saído em público como vieram ao mundo, num jogging natural em meio a avenidas e carros buzinantes.

O cooper desnudo, a que muitos brasileiros têm aderido, pode ser um reflexo do ano complicado, com mortes, gols da Alemanha e ataques de coxinhas e petralhas em todas as direções. Imagino que tudo isso seja um grito desesperado por paz e amor. Um pedido de trégua, uma aclamação para que, pelo menos uma vez, relaxemos.

De fato, não creio que esta é a primeira vez que tal comportamento acontece. Todos já ouviram boatos sobre algum cidadão nu em algum lugar. Padarias, aeroportos, parques. Era tudo história, causos que escutávamos de um amigo de um amigo.

Mas agora é real. Qualquer busanfa ou peitinho ao relento, balançando por aí, em público, é logo clicado e compartilhado, submetido ao aval do público, que julga tudo que vê com seu joinha engatilhado no mouse.

Não se pode mais sacar seu instrumento para fora que em 15 minutos ele estará em todos os portais do ciberespaço, borrado com um efeito tosco de photoshop. Seu órgão agora pertence à rede mundial de computadores.

Você não queria caminhar pelado para todo mundo ver? Pois bem, todo mundo viu, reviu, compartilhou, retweetou, curtiu, postou no instagram, e comentou.

Pode ser até que sua imagem viralize e seja utilizada numa campanha de aceitação do corpo sem que você saiba ou queira. Pode ser também que usem uma hashtag para reforçar a ideia, algo como #somostodospelados. E então veriam que era tudo uma jogada de uma agência de publicidade que se aproveitou da situação e montou uma estratégia para vender seu novo produto, um soutien incrível que, quando vestido, dá a sensação que não se está usando nada.

Isso porque você, de saco cheio de tudo, decidiu que iria sair sem roupa um belo dia. Imagina se essa moda pega?

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