Tchau

Os desenhos das pedras pretas e brancas que cobrem o corredor de entrada do prédio lembram os famosos calçadões cariocas. Flip, flap, flip, flap. Luana vem arrastando as sandálias num passo lento, quase querendo ir para trás.

Flip… Flap… Flip… A sola lambe a pedra e faz um ruído ritmado. João vem ao lado, acompanhando a vagarosa valsa. Desamarrados, os cadarços do All Star preto lembram as tranças de uma menina num balanço de parque, indo e voltando, uma hora aqui e outra ali.

Flip, flap. Um band-aid no joelho esquerdo dela cobre o machucado feito na noite anterior, na quina da mesinha da sala, quando não havia mais luz penetrando a janela lateral. A barra do vestido florido, no fim das coxas, levanta a cada sopro mais forte do vento. O lenço que ela amarra abaixo da cintura, impede que algo a mais seja revelado. As mãos dadas suam por causa do bafo de fim de dia.

O cinto dele é velho, surrado. Mesmo assim faz bem seu trabalho, impedindo que o jeans escorregue e revele a cueca, igualmente velha e surrada, além de furada. Sua mão direita, livre, espreme com força um bilhete escrito em uma folha de caderno escolar.

Flip, flap, flip, flap.

A mão esquerda dela, também livre, leva o maço de flores que ganhou. Margaridas. Flip… Flap… No colo, repousa o escapulário da avó falecida. O coração bate com vontade de sair. Os dois batem assim, na verdade. Um nó em cada garganta.

O cabelo castanho toca os ombros. No direito, o beija-flor tatuado com autorização relutante dos pais é parcialmente coberto pelos fios despenteados. A boca só abre quando a respiração do nariz, enfeitado com um piercing prateado, hesita. Ela o olha por um segundo. Flip, flap.

Seu queixo, coberto por uma barba recém nascida, treme devagar. Os dentes de cima mordem a parte inferior do lábio, arrancando pequenos pedaços de pele que logo são cuspidos no chão. O nariz, vermelho da rinite, inspira e expira, como aprendeu no médico.

A lágrima que escorre pelo olho de Luana contorna a parte de fora do nariz. Do outro lado, o pingo desce a bochecha e se atira do precipício. Flip, flap. Eles param.

Viram os corpos e se olham. O abraço dura cinco minutos. O beijo, três. Ele sai sem olhar para trás e as mãos se desgrudam. Ela observa até ele virar a esquina e volta para dentro com rapidez.

Flip, flap, flip, flap, flip, flap, flip, flap, flip, flap, flip, flap, flip, flap.

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