Arquivo do mês: janeiro 2015

Camping

O igluzinho é simpático, com uma coloração verde e azul que, com o efeito da luz que penetra pelo pano, lembra os vitrais de uma igreja mineira. Quente pra diabo. A lona que serve para segurar a chuva, sempre presente, mas que dessa vez não deu as caras, só ajuda na retenção do calor. Logo a sauna se forma e é impossível ficar por ali.

A sensação térmica deve ser de uns 60°, e o cheiro das roupas molhadas no varal se somam ao das frutas podres espatifadas no terreno vizinho, criando um aroma que não ajuda em nada.

Neste cenário, o chuveiro que não esquenta e gela até a alma acaba se tornando um fator positivo. A porta do banheiro não tranca, então quando se escuta algum barulho é hora de segurar a trinca para que não te peguem de calças arriadas. Mas para outros, isso não parece ser grande problema. Andam por ali conversando e dando risada, nus, sem se importar com o resto do mundo e os desconhecidos ao lado.

O ventilador, plugado numa extensão que cruza o chão de terra batida, vira a cabeça lateralmente dentro da barraca. Bendita seja essa tomada, essa extensão, esse ventilador. Deus, proteja esse fio para que ninguém o chute e termine com essa benção, esse ventinho santo que sopra nossas costas encharcadas de suor.

O colchão parece uma lâmina, uma folha de bananeira. Um centímetro, se muito. O travesseiro deve ser feito com sacos de pão ou qualquer outro material que não foi fabricado, inicialmente, para algum sujeito deitar a cabeça o dormir. Ao acordar, a sensação que levou uma surra de MMA. Todos os ossos estralam e doem.

A tentativa de não trazer areia e terra para dentro dos aposentos é cada vez menor. O rastro de sujeira vai aumentando à medida que nossa preocupação e cautela vão diminuindo. A roupa suja, que antes tinha local exato, agora é jogada ao lado do travesseiro ou em qualquer fresta que se ache.

Dá uma preguiça pegar as coisas para escovar os dentes, tomar banho, fazer xixi. Pega tudo, abre o zíper, sai com cuidado, fecha para não entrar bicho, anda até o banheiro, espera na fila, faz tudo, volta, deixa o chinelo, faz malabarismo para não pisar descalço na terra, cuidado para não sujar, que saco, não vou fazer nada disso.

Parece que as pessoas estão falando dentro da sua barraca, no seu ouvido. Principalmente quando se trata de uma família carioca de 20 membros, um mais escandaloso que o outro. “Porra Dandara, tá de sacanagem?”. Dandara, no caso, uma menininha de 5 anos, um amor. Já sei da vida de todo mundo. Dela, da avó, do tio, do primo, do pai, do avô nu no banheiro. Sei das tragédias, das alegrias, do formato do cocô da tia todos os dias. Nunca nos falamos e estamos íntimos.

A Dandara tomou um esporro porque queria colocar uma roupa que, segundo sua avó, era de sábado. Como era sexta, não podia. Como ela insistiu, apanhou e chorou. Tadinha. No outro dia, queria um açaí. “Açaí Dandara? Eu quero é beber! Que porra de açaí o que?!”. Mas que grosseria, ein.

Tinha uma barata na barraca e ficamos pensando se ela passou a noite lá, dançando La Cucaracha nos nossos rostos. O fulaninho bebeu metade do Toddynho da Nicole, que tomou uma baita bronca por que o negócio estava quente. “Ixtava freiixxco tia”, “Freixco merrrda nenhuma! Essa porra vai te dar caganeira!”. Mas que baixaria pessoal, calma lá.

Tem tudo isso, mas isso não é tudo. Quem sabe da próxima vez role algum outro tipo de perrengue para me dar o que escrever.

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