Arquivo do mês: março 2015

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Altamir:

Tava eu mais Macedo sentado ali do lado do galpão. Devia ter passado de meia-noite, já que as músicas estavam tocando e tinha acabado o jogo do Flamengo. Já era hora de nós ir embora, mas o Macedo tinha comprado um salame na venda do Inácio e nós tava dividindo ele aqui.

Aí de repente o rádio começou a dar aquele chiado brabo, sabe? Quando fica pulando e não dá nem mais pra entender o que o sujeito ta falando… Me levantei e foi nessa hora que o céu ficou todo roxo, parecia sei lá o que, nunca vi isso. Deu um barulho de liquidificador engasgado, assim, de motor pegando no tranco. Depois deu uns estouro mesmo.

Nós tapou os ouvido e eu vi o negócio cair ali no fundo, pra trás da plantação do Erminio. Subiu um fumacê do diacho e nós foi lá correndo.

 

 

 

 

Leandro:

Tem que ser muito egoísta para achar que estamos sozinhos nesse mundo. Como pode? O universo é gigantesco, infinito. Conhecemos uma porcentagem mínima dele, quase nada. E vocês acham que só existe a gente? Não consigo entender como alguém pode se achar tão importante, tão especial assim. É muita falta de caráter, em minha opinião.

Eu vi o buraco. Cheguei tarde, mas vi. Aquilo não é coisa que humano faria, é algo de fora, pode ter certeza.

 

 

 

 

 

Henrique:

Essas coisas nunca acontecem no Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador. É só em lugar assim, miúdo, cidade pequena, nos quinto dos inferno. Ninguém vê nada, não tem televisão para filmar, uma alma com máquina fotográfica boa, onde já se viu? Hoje em dia qualquer celular tira retrato. Aí vocês vêm uma semana depois e querem saber o que houve. Quer saber? Nada. O povo aqui inventa história só pra vir neguinho de fora uma vez ou outra. É um saco aqui.

Como que eu vou acreditar? Não é possível um troço desses passar assim, ouviram dizer, fulano diz que viu, Zezinho ouviu o barulho, um amigo da minha prima jura por Deus…. Eu não acredito, já disse. Quero ver quem vai me provar. E outra, egoísta para mim é quem não aceita um pensamento diferente do seu. Quer acreditar, acredita, mas não acha que eu vou entrar nessas nóia.

 

 

 

 

 

Maria Inês:

Sempre depois da janta eu me recolho. Vou para cama e fico fazendo as minhas coisas. Olho um pouquinho as fotos, rezo um terço, leio minhas histórias, e às vezes escuto a missa que dá no rádio. Naquele dia, fiz o que faço todas as vezes e peguei no sono.

Normalmente, meu sono é bem leve, até porque eu fico de olho para ver se o Moacir não chega do serviço. Ele vem de madrugada, sabe? Aí, quando eu escuto, eu já me levanto e vou preparar uma comidinha.

Então como eu ouvi um barulho, fui direto para a cozinha e percebi uma correria danada lá fora. Vi pela janela o Altamir e o Macedo correndo na direção do milharal e tomei um susto enorme.

Abri a porta, caminhei até a soleira, e fui abduzida.

 

 

 

 

Oliveira:

Positivo. Recebemos o chamado aqui por volta da meia-noite e quarenta e dois e nos dirigimos ao local indicado imediatamente. O oficial Florez me acompanhou e chegamos exatamente à uma hora da madrugada.

Ao chegarmos, nos deparamos com um grupo pequeno que rodeava um buraco bastante amplo. A dona Maria Inês estava sentada em uma cadeira. Os presentes disseram que ela havia desmaiado pouco antes.

Sim, ela alega ter presenciado algum tipo de atividade extraterrestre. Não trabalhamos com essa possibilidade, mas também não podemos descartá-la antes da verificação completa do perímetro.

 

 

 

 

 

Klebinho:

Ta bom, fui eu. Eu e o Palito, mas não conta, por favor. Meu pai me mata, sério tio, não conta. A gente pegou as bombinhas lá no Juarez, tinha um mês já. O Seu Erminio tinha dito que ia contar que viu eu e os moleque fumando ali no Alemão. Aí a gente só queria dar um susto nele, acordar, sei lá. Tinha traque, buscapé, morteiro. Era só para dar um troco, apavorar ele. Depois que a gente soltou e saiu correndo, juntou um monte de gente, a Tia Inês desmaiou, veio os polícia. Não dava para contar, meu pai ia me dar uma surra.

Aí ainda chegou vocês da TV, não achava que ia dar nisso tudo. Não conta, por favor, to fodido se meu pai descobre.

 

 

 

 

 

Macedo:

Corri tão rápido que o salame que eu tava na mão caiu no meio dos milho ali. O Altamir ficou pra trás… Também, gordo baleia.

Vim que quase caí dentro do buraco. Parei na beirinha, maior sorte. Tava na velocidade dum foguete. Uma fumaça danada, um cheiro de queimado, de pneu freando nos asfalto. Olhei pra procurar alguém e vi o bichinho encostado ali naquele canto. Cabeção de ovo, olhin de amendoim. Fiquei com medo não, parei firme. Perguntei o que ele queria.

Ele me disse bem assim: “Macedo, ocê é homem bom. Cuida das pessoa aqui da Terra”.

Aí eu virei e veio o Altamir bufando igual um boi. O bichinho saiu vazado, nem vi. Os cabra vieram perguntar e eu disse, acredita se quiser mesmo.

Acho que vou virar doutor ou padre né? É isso, né não?

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Originalmente falso

Com quantas cidades se faz uma cidade? Las Vegas prova que a resposta é um pouco incerta. Depende do ponto de vista, do dinheiro e capacidade de imaginação. Se existe uma Torre Eiffel em Paris, por que não aqui? Uma Estátua da Liberdade também. Pirâmides do Egito? Sim, pode colocar. Acho que os canais de Veneza cairiam bem dentro desse shopping e, se o céu não faz jus ao italiano, que se crie um igual, oras.

Assim é a, como conhecemos, “cidade do pecado”, The Fabulous Las Vegas – Nevada, como diz o letreiro de boas-vindas. E se torna fabulosa seguindo a risca o velho ditado de que nada se cria, tudo se transforma, tudo se copia. Não há vergonha nenhuma em se ostentar símbolos marcantes de outras cidades, um ao lado do outro. Um pulinho na América do Norte de manhã, na Europa pela tarde, e na África de noite. Sem precisar embarcar em nenhum avião para isso.

É falso, mas quem se importa? Não é óbvio? O jeito é entrar na onda e encarar que aquilo é uma grande brincadeira, temperada com passeios de montanha-russa, bebidas colossais servidas em enormes jarras com formatos variados, panfletos de strippers distribuídos por latinos de meio metro, e tudo de mais estanho que possa aparecer na sua frente. Estranho para os desavisados, porque por ali parece muito normal passear com uma fantasia esdrúxula ou comer toneladas de uma comida ruim no que eles chamam de “Buffet”.

Nas ruas, homens e mulheres tentam chamar a atenção do pedestre, cobrando por fotos. Obamas, Sininhos, Homens de ferro, Brancas de Neve, e todo o tipo de personagem imaginável. Nada mais esperado que, na cidade que copia outras, as pessoas façam o mesmo. Os que estão ali mostrando o corpo também caem na mesmice. Peitos, bundas, e músculos falsos, claro.

A agonia de se viver dentro de hotéis, enfurnado, se torna maior ao passar dos dias. Ver o céu, de verdade, não um papel com desenhos de nuvens colado ao teto, passa a ser raridade. É tudo entre quatro paredes. Ou melhor, centenas de paredes, tetos de brilhante, luzes vindas de sei lá onde, escadas rolantes giratórias, lustres de mil lâmpadas, painéis de led que reproduzem cenas abstratas.

Não existe espaço para minimalismo, coisas pequenas. Qualquer que seja o lugar, é preciso uma escultura gigantesca ou um sinal de néon massivo piscando sem parar. Parece que há uma competição para ver quem consegue chamar mais a atenção.

Os casamentos, já uma tradição, são igualmente falsos e parte da grande sacada. Elvis e Marilyn Monroe se casando na capela de um hotel que imita o Palácio de César. Não procure buscar o sentido e nem tente achar que isso é algo sério. O que acontece em Vegas, fica em Vegas, dizem.

Aliás, entendi o que o famoso slogan quer dizer. Joguei no cassino e ganhei 40 dólares. Joguei de novo e perdi tudo. O que aconteceu lá, também ficou.

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