Originalmente falso

Com quantas cidades se faz uma cidade? Las Vegas prova que a resposta é um pouco incerta. Depende do ponto de vista, do dinheiro e capacidade de imaginação. Se existe uma Torre Eiffel em Paris, por que não aqui? Uma Estátua da Liberdade também. Pirâmides do Egito? Sim, pode colocar. Acho que os canais de Veneza cairiam bem dentro desse shopping e, se o céu não faz jus ao italiano, que se crie um igual, oras.

Assim é a, como conhecemos, “cidade do pecado”, The Fabulous Las Vegas – Nevada, como diz o letreiro de boas-vindas. E se torna fabulosa seguindo a risca o velho ditado de que nada se cria, tudo se transforma, tudo se copia. Não há vergonha nenhuma em se ostentar símbolos marcantes de outras cidades, um ao lado do outro. Um pulinho na América do Norte de manhã, na Europa pela tarde, e na África de noite. Sem precisar embarcar em nenhum avião para isso.

É falso, mas quem se importa? Não é óbvio? O jeito é entrar na onda e encarar que aquilo é uma grande brincadeira, temperada com passeios de montanha-russa, bebidas colossais servidas em enormes jarras com formatos variados, panfletos de strippers distribuídos por latinos de meio metro, e tudo de mais estanho que possa aparecer na sua frente. Estranho para os desavisados, porque por ali parece muito normal passear com uma fantasia esdrúxula ou comer toneladas de uma comida ruim no que eles chamam de “Buffet”.

Nas ruas, homens e mulheres tentam chamar a atenção do pedestre, cobrando por fotos. Obamas, Sininhos, Homens de ferro, Brancas de Neve, e todo o tipo de personagem imaginável. Nada mais esperado que, na cidade que copia outras, as pessoas façam o mesmo. Os que estão ali mostrando o corpo também caem na mesmice. Peitos, bundas, e músculos falsos, claro.

A agonia de se viver dentro de hotéis, enfurnado, se torna maior ao passar dos dias. Ver o céu, de verdade, não um papel com desenhos de nuvens colado ao teto, passa a ser raridade. É tudo entre quatro paredes. Ou melhor, centenas de paredes, tetos de brilhante, luzes vindas de sei lá onde, escadas rolantes giratórias, lustres de mil lâmpadas, painéis de led que reproduzem cenas abstratas.

Não existe espaço para minimalismo, coisas pequenas. Qualquer que seja o lugar, é preciso uma escultura gigantesca ou um sinal de néon massivo piscando sem parar. Parece que há uma competição para ver quem consegue chamar mais a atenção.

Os casamentos, já uma tradição, são igualmente falsos e parte da grande sacada. Elvis e Marilyn Monroe se casando na capela de um hotel que imita o Palácio de César. Não procure buscar o sentido e nem tente achar que isso é algo sério. O que acontece em Vegas, fica em Vegas, dizem.

Aliás, entendi o que o famoso slogan quer dizer. Joguei no cassino e ganhei 40 dólares. Joguei de novo e perdi tudo. O que aconteceu lá, também ficou.

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