Arquivo do mês: junho 2015

Dois anos atrás

Dois anos atrás eu sentei em uma cadeira dura e verde sem saber o que aconteceria dali em diante. Fiquei olhando para uma mulher de jaleco branco entediada com seu trabalho e para os ladrilhos manchados de café no chão.

Dois anos atrás encarei a porta que abria e fechava, trazendo o vento gelado, típico de junho, da rua para dentro.

Dois anos atrás fiz de conta que estava tudo bem enquanto pensava que aquilo era tudo muito injusto. Me encolhi na cadeira dura e verde e contei cada hora, minuto e segundo, rezando para que os anos passassem depressa.

Dois anos atrás quis mandar tudo a merda, mas fiquei quieto, sentado em uma cadeira dura e verde. Limpei o nariz que escorria com um papel que havia trazido do banheiro e tentei passar mais uma fase do Candy Crush.

Dois anos atrás comi uma bala Sete Belo sentado em uma cadeira dura e verde, esperando o tempo passar. Conversei por cinco minutos com uma senhora um pouco surda que, tenho certeza, não entendeu nada do que eu disse sobre as manifestações de junho. No fim, ela me disse que eu era um amor.

Dois anos atrás ouvi uma conversa de uma mulher no telefone, enquanto estava sentado em uma cadeira dura e verde. Ela dizia que a amiga havia a convidado para jantar, e pedia dicas de vinhos. Dois anos atrás quis muito ouvir o que a pessoa falava do outro lado da linha e quase esqueci o que estava fazendo ali, naquela cadeira dura e verde.

Dois anos atrás fiquei sozinho por muito tempo, sentado na cadeira dura e verde. Tanto tempo que percebi que, na verdade, nunca soube mesmo o que aconteceria no futuro. E achei graça, pensando ter descoberto o sentido da vida.

Dois anos atrás é tão hoje, que eu nem acredito que foi dois anos atrás.

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Boicotes

Na época do colégio, volta e meia os alunos organizavam um boicote à Cantina do Bola. Todo mês alguém vinha na nossa sala com um discurso bem ensaiado, apontando os preços abusivos de Toddynhos e balas Sete-Belo, querendo dar um fim ao monopólio dos recreios.

Lembro que eu achava que aquilo já estava ficando muito repetitivo, e na maioria das vezes não ia a lugar algum. Considerava aquela tentativa pseudo-política dos meus colegas até um pouco ridícula.

Este mês, no entanto, foi provado que aquilo não era nem um pouco ridículo, comparado ao que vem acontecendo. Outro boicote foi proposto, mas desta vez o negócio não tem nada a ver com pré-adolescentes querendo coca-cola a dois reais.

O boicote, agora, deixaria os líderes do movimento anti-Cantina do Bola no chinelo em questão de loucura. Trata-se de um apelo contra a marca O Boticário, que se iniciou após a veiculação de seu último comercial, considerado “ultrajante” e “ofensivo”. Nele, casais, alguns deles homossexuais, se presenteiam em comemoração ao dia dos namorados.

De início, por pura ingenuidade, imaginei que havia envolvida certa inveja, já que hoje em dia é tão raro encontrar alguém, e mais do que isso, alguém que nos dê presentes! Caí do cavalo quando fui informado que esse não era o motivo da tentativa de boicote.

Pelo que parece, mas ainda não sei se é tudo uma grande piada, o movimento contra o Boticário seria simplesmente por a marca mostrar gays em seu vídeo publicitário.

Antes que pensemos, portanto, em cancelar toda a programação da televisão brasileira, do rádio e do cinema, vamos parar para pensar. Primeiramente vou considerar que isso tudo é algo verdadeiro, e não uma pegadinha elaborada por um gênio da internet. Após isso, devemos tentar entender o que levaria alguém a se organizar para boicotar uma marca por causa de um comercial de televisão que mostra homossexuais.

Os argumentos variam dos mais esdrúxulos aos mais cômicos. O mais dito é o tal “vai contra a família brasileira”, que creio se encaixar nos dois exemplos.

Também tem os que dizem que é algo “antinatural” e os que apelam para as crianças, dizendo que elas não entenderiam tal comportamento. A família brasileira, como alguns pintam, se orgulha de sua estrutura sólida, mas não consegue parar e conversar por cinco minutos com seus filhos.

A dificuldade de se aceitar o outro vai muito além do que eu entendia na época da escola como algo ridículo. O boicote à cantina, organizado por jovens na faixa de 15 anos, fazia muito mais sentido que este outro, promovido por dignos engravatados.

Ver os outros felizes, parece, é tão ruim quanto pagar 5 reais em um pastel.

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