Arquivo do mês: julho 2015

Por um fio

Me deito de barriga para cima, encarando o teto e abro a boca. Aaahhh… Junto as mãos como se o hino nacional fosse ser executado e seguro um papel toalha. Logo um enorme olho mecânico me encara e joga luz sobre meu rosto, me cegando temporariamente. O silêncio é cortado pela melodia inicial de Careless Whisper, acompanhada pela chamada da Alpha FM. Não há dúvidas: Estou no dentista.

Minha tia coloca a máscara branca e pega seus apetrechos. A cabeça do espelhinho encosta e gela a parte de dentro da minha bochecha, abrindo espaço para uma vareta com um pequeno gancho na ponta, que cutuca meu dente e sangra minha gengiva.

O que vem a seguir eu já sei. Todos nós sabemos. “Pedro!”, sim… Sim. Estou ciente do meu relaxo e sei que mereço a bronca, então concordo com qualquer coisa que seja dita. Conheço o roteiro de trás para frente, e não demora para que a pergunta seja feita.

− Você tem usado o fio dental?

Antes de tudo, preciso deixar claro que não sou um total relapso com minha higiene, como pode estar parecendo. Mantenho uma média boa de escovação diária com direito a bochecho com aqueles líquidos multicoloridos da família do Listerine. O problema é justamente o fio dental, que muitas vezes passa batido nesse ritual.

É certo que me lembro, vez ou outra, do pequeno cordão, mas não consigo carregar apreço por ele. Sua engenharia é complicada para mim, existem macetes que eu não entendo. As mãos acabam batendo no nariz, na orelha, no queixo. Eu babo na camisa, me irrito com a teimosia do bicho que não quer se enfiar entre os molares.

Às vezes, paro o que estou fazendo, me olho no espelho e vejo uma cena ridícula que me impede de continuar tentando. Eu, congelado, em uma pose bizarra, com a boca escancarada, os olhos arregalados, me contorcendo para enfiar um barbante perto dos sisos.

Não é nada glamoroso passar fio dental. Já viram a Scarlett Johansson fazendo isso? Nos filmes e novelas, todo mundo escova os dentes, mas passar fio que é bom… Comerciais também não estimulam a prática. É enxaguante bucal para cá, pasta para lá, e o chato do fio dental ninguém quer saber.

E outra, esse negócio dói para caramba. É sangue escorrendo para todo lado, uma carnificina. Uma cena horrível. E por mais que os dentistas falem “onde sangra é que se tem que passar o fio, para que não sangre mais”, se eu nunca passar o fio, também não sangrará, não é? Fácil, fácil.

Obviamente é papel do dentista insistir conosco nesse quesito, mas não é irônico como o trabalho deles depende de nós ignorarmos o que eles dizem? Se toda vez que um dentista mandar o paciente passar fio dental o paciente realmente fizer isso, seus dentes ficarão limpos e o dentista ficará sem trabalho e, consequentemente, sem dinheiro.

No meu caso não funciona bem assim, já que minha dentista é minha tia e eu não pago as consultas. O problema é que eu esqueço mesmo, só isso.

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Especialista

Virei especialista em todos os esportes do Pan-Americano. Assim, do nada mesmo. Outro dia fui ver e sabia tudo sobre todas as modalidades disputadas. Uma coisa meio kafkiana, numa noite era um leigo, e ao acordar estava completamente mudado.

Sei tudo. Os principais atletas, os países mais bem cotados para o ouro, os azarões, os que estão ali só para participar. Conheço também o linguajar específico de cada esporte, assim como suas regras, sua história, tudinho. Sou uma enciclopédia completa.

Apesar da repentinidade do acontecimento, sei bem que ele tem data de validade. Assim que a pira for apagada, cada um pegar seu avião para casa, os refeitórios dos atletas forem transformados em Mcdonalds, e os jogos acabarem, passarei, novamente, a ser um zero à esquerda em relação a qualquer esporte menos noticiado pela grande mídia.

Da maneira que começou, irá acabar, mas por enquanto aproveito. Olho a canadense se aquecendo para sua apresentação nas barras paralelas assimétricas e penso: “Essa aí é fera! Última campeã olímpica!”. De fato, nunca vi aquela moça na vida, mas meu faro de especialista não se engana.

“Esse cubano entrou muito de lado no cavalo com alças, estava na cara que ia se desequilibrar”. Passei a entender sobre a prática das modalidades também. “Vai Daniele! Solo é sua melhor prova!”. Sim, eu sei que é, sempre soube. Troco de canal.

“Pô, juizão, Wazari?! Ta na cara que é Ippon!”. Esqueci de mencionar, sei golpes de judô agora. “Yuko nele! Ah garoto!”. Levanto do sofá e torço por um completo desconhecido com o mesmo entusiasmo que alguém torce pelo próprio irmão. “Puts, está fugindo da luta… Vai tomar um shido logo, logo”. Minha especialidade me faz entender tudo que está acontecendo.

Passo a comentar com as pessoas, discutir as chances de atletas que eu desconhecia até os ver entrando na água, vestindo maiôs e óculos de natação. “Léo de Deus nada muito!”, “Joana Maranhão é muito rápida! Evoluiu demais!”. “Olho nesse uruguaio aí ein, moleque promissor!”. “Vai! Vai! Nada! Braçada! Respira! Vamos! Aeee!!”. Que lindo, Brasil, é ouro. Torço por essa medalha desde que me lembro! O esforço foi recompensado!

E o remo então? Acompanho desde menino. Vôlei de praia é, sem querer contar vantagem, minha área de mais expertise. Tenho um blog sobre ciclismo que está bombando e a Folha de S. Paulo acabou de me chamar para escrever uma coluna semanal com perfis de jogadores de pólo aquático. De luta Greco-romana não entendo nada.

E isso é só o aquecimento para as olimpíadas. Tão bom ser um especialista.

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