Especialista

Virei especialista em todos os esportes do Pan-Americano. Assim, do nada mesmo. Outro dia fui ver e sabia tudo sobre todas as modalidades disputadas. Uma coisa meio kafkiana, numa noite era um leigo, e ao acordar estava completamente mudado.

Sei tudo. Os principais atletas, os países mais bem cotados para o ouro, os azarões, os que estão ali só para participar. Conheço também o linguajar específico de cada esporte, assim como suas regras, sua história, tudinho. Sou uma enciclopédia completa.

Apesar da repentinidade do acontecimento, sei bem que ele tem data de validade. Assim que a pira for apagada, cada um pegar seu avião para casa, os refeitórios dos atletas forem transformados em Mcdonalds, e os jogos acabarem, passarei, novamente, a ser um zero à esquerda em relação a qualquer esporte menos noticiado pela grande mídia.

Da maneira que começou, irá acabar, mas por enquanto aproveito. Olho a canadense se aquecendo para sua apresentação nas barras paralelas assimétricas e penso: “Essa aí é fera! Última campeã olímpica!”. De fato, nunca vi aquela moça na vida, mas meu faro de especialista não se engana.

“Esse cubano entrou muito de lado no cavalo com alças, estava na cara que ia se desequilibrar”. Passei a entender sobre a prática das modalidades também. “Vai Daniele! Solo é sua melhor prova!”. Sim, eu sei que é, sempre soube. Troco de canal.

“Pô, juizão, Wazari?! Ta na cara que é Ippon!”. Esqueci de mencionar, sei golpes de judô agora. “Yuko nele! Ah garoto!”. Levanto do sofá e torço por um completo desconhecido com o mesmo entusiasmo que alguém torce pelo próprio irmão. “Puts, está fugindo da luta… Vai tomar um shido logo, logo”. Minha especialidade me faz entender tudo que está acontecendo.

Passo a comentar com as pessoas, discutir as chances de atletas que eu desconhecia até os ver entrando na água, vestindo maiôs e óculos de natação. “Léo de Deus nada muito!”, “Joana Maranhão é muito rápida! Evoluiu demais!”. “Olho nesse uruguaio aí ein, moleque promissor!”. “Vai! Vai! Nada! Braçada! Respira! Vamos! Aeee!!”. Que lindo, Brasil, é ouro. Torço por essa medalha desde que me lembro! O esforço foi recompensado!

E o remo então? Acompanho desde menino. Vôlei de praia é, sem querer contar vantagem, minha área de mais expertise. Tenho um blog sobre ciclismo que está bombando e a Folha de S. Paulo acabou de me chamar para escrever uma coluna semanal com perfis de jogadores de pólo aquático. De luta Greco-romana não entendo nada.

E isso é só o aquecimento para as olimpíadas. Tão bom ser um especialista.

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