Por um fio

Me deito de barriga para cima, encarando o teto e abro a boca. Aaahhh… Junto as mãos como se o hino nacional fosse ser executado e seguro um papel toalha. Logo um enorme olho mecânico me encara e joga luz sobre meu rosto, me cegando temporariamente. O silêncio é cortado pela melodia inicial de Careless Whisper, acompanhada pela chamada da Alpha FM. Não há dúvidas: Estou no dentista.

Minha tia coloca a máscara branca e pega seus apetrechos. A cabeça do espelhinho encosta e gela a parte de dentro da minha bochecha, abrindo espaço para uma vareta com um pequeno gancho na ponta, que cutuca meu dente e sangra minha gengiva.

O que vem a seguir eu já sei. Todos nós sabemos. “Pedro!”, sim… Sim. Estou ciente do meu relaxo e sei que mereço a bronca, então concordo com qualquer coisa que seja dita. Conheço o roteiro de trás para frente, e não demora para que a pergunta seja feita.

− Você tem usado o fio dental?

Antes de tudo, preciso deixar claro que não sou um total relapso com minha higiene, como pode estar parecendo. Mantenho uma média boa de escovação diária com direito a bochecho com aqueles líquidos multicoloridos da família do Listerine. O problema é justamente o fio dental, que muitas vezes passa batido nesse ritual.

É certo que me lembro, vez ou outra, do pequeno cordão, mas não consigo carregar apreço por ele. Sua engenharia é complicada para mim, existem macetes que eu não entendo. As mãos acabam batendo no nariz, na orelha, no queixo. Eu babo na camisa, me irrito com a teimosia do bicho que não quer se enfiar entre os molares.

Às vezes, paro o que estou fazendo, me olho no espelho e vejo uma cena ridícula que me impede de continuar tentando. Eu, congelado, em uma pose bizarra, com a boca escancarada, os olhos arregalados, me contorcendo para enfiar um barbante perto dos sisos.

Não é nada glamoroso passar fio dental. Já viram a Scarlett Johansson fazendo isso? Nos filmes e novelas, todo mundo escova os dentes, mas passar fio que é bom… Comerciais também não estimulam a prática. É enxaguante bucal para cá, pasta para lá, e o chato do fio dental ninguém quer saber.

E outra, esse negócio dói para caramba. É sangue escorrendo para todo lado, uma carnificina. Uma cena horrível. E por mais que os dentistas falem “onde sangra é que se tem que passar o fio, para que não sangre mais”, se eu nunca passar o fio, também não sangrará, não é? Fácil, fácil.

Obviamente é papel do dentista insistir conosco nesse quesito, mas não é irônico como o trabalho deles depende de nós ignorarmos o que eles dizem? Se toda vez que um dentista mandar o paciente passar fio dental o paciente realmente fizer isso, seus dentes ficarão limpos e o dentista ficará sem trabalho e, consequentemente, sem dinheiro.

No meu caso não funciona bem assim, já que minha dentista é minha tia e eu não pago as consultas. O problema é que eu esqueço mesmo, só isso.

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4 Comentários

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4 Respostas para “Por um fio

  1. Angela

    Pedro. Adorei o passo a passo da ida ao dentista! Eu sei muito nem o que é a dra explicando sobre o fio dental. Afinal, ela é minha dentista também.

  2. Angela

    Pedro. Adorei o passo a passo da ida ao dentista! Eu sei muito bem o que é a dra explicando sobre o fio dental. Afinal, ela é minha dentist de também.

  3. C.

    Oi, não vai escrever mais?

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