Arquivo do mês: janeiro 2016

Dança das cadeiras sênior

“Bomba! Para dançar isso aqui é bomba! Para balançar isso aqui é…”, a música para de supetão e dezenas de crianças encapetadas se jogam em frágeis cadeiras de plástico, arriscando fraturas nos braços e dentes da frente estraçalhados, mas com a bravura de um verdadeiro campeão.

A gincana infantil comandada por um palhaço tenebroso com uma pintura facial tosca é o prelúdio de nossa vida adulta. A dança das cadeiras, jogo muito popular nas festinhas que íamos na infância, nos preparou para um momento específico dos nossos anos futuros: a briga por um lugar na praça de alimentação ou no quilo, nos horários de almoço.

É tudo muito parecido, com exceção do DJ tocando músicas de gosto duvidoso (algumas que vamos entender o duplo sentido anos depois, cantarolando inocentemente). Outra mudança é que, na versão sênior do jogo, há uma dificuldade a mais, os pratos cheios de comida que devemos manter intactos. Enquanto os garotos só se preocupam em empurrar aquele guri mais fracote na hora H, os adultos também devem conseguir equilibrar suas bandejas do Spoleto sem sujar a gravata de molho bolonhesa.

Além disso, no jogo original, as cadeiras estão sempre vazias, esperando para serem ocupadas quando a música parar. No jogo adulto é tudo mais complicado, e devemos observar atentamente os possíveis assentos livres, sem o auxílio de canções que nos avisam a hora certa de agir.

O resto é basicamente igual. O caminhar lento, fingindo despreocupação e o radar ligado. Olhos de lince para lugares desocupados. E, no momento exato, ataque! É tudo uma questão de olhar atento, agilidade e um pouquinho de maldade. Se jogar na frente do outro é crucial para a tarefa dar certo, mesmo que seu suco grátis (e artificial) de tangerina, derrame de leve.

Pronto, você venceu. Triunfante e apertado, dividindo uma mesa de tampo de granito com dois desconhecidos, penso nas frases que ouvia quando me irritava com os deveres da escola. “Você vai usar isso mais para frente”, “Tudo tem um propósito”. Tento cortar meu bife sem aplicar uma cotovelada certeira no meu vizinho e sigo feliz por ter descoberto algo da vida escolar que me foi realmente útil.

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Garnett

O americano Kevin Garnett é um dos grandes jogadores da história da NBA, a liga de basquete dos Estados Unidos. Na temporada de 2003/04, foi eleito o melhor jogador, o que elevou seu status a um dos melhores, se não o melhor a vestir a camiseta regata dos Minnesota Timberwolves. O estilo de jogo do ala-pivô de dois metros e onze de altura é muito característico. Garnett é uma fera dentro de quadra.

Explosivo e temperamental, é conhecido por se utilizar muito do trash talk, a artimanha de falar besteiras na orelha do adversário. Durante toda a partida, quem estiver por perto é recebido com insultos, provocações e tudo que KG conseguir usar para desestabilizar o oponente. Seu ponto forte, ao longo de toda a carreira, foi o toco, movimento de bloqueio de uma tentativa de cesta adversária, o que, por vezes, pode ser um tanto humilhante. A moral é: Ninguém quer receber um toco, especialmente dele.

Mas neste momento, até o leitor menos concentrado, que vai lendo as linhas pensando no que vai jantar, no que devia ter falado naquela reunião do trabalho, deve estar se perguntando: “Ok, mas e daí? O que isso tem a ver com qualquer coisa?”. Pois bem, explico a curiosidade antes que perca ainda mais a atenção do amigo. Justamente essas características de Kevin Garnett o tornaram parte do vocabulário usado por mim e pelo meu grupo de amigos. Tudo isso fez do nome do jogador, uma gíria para nós.

Parece estranho e difícil, mas resumo. Todo grupo de amigos possui histórias, piadas internas e linguajar próprio. Muitas vezes, se ouvirmos de fora, não entendemos nada do que está sendo conversado. Meu grupo de amigos não é diferente, e entre outras dezenas de expressões que nós utilizamos, “Garnett” virou uma das principais.

Usamos, por exemplo, para nos referirmos àquele famoso pé na bunda. Há quem use o termo “bota”, e também os que preferem dizer “fora”. “Toco” é utilizado constantemente, mas nós preferirmos ir por “Garnett”. E então, como foi com a garota? Tomei um baita Garnett.

O sentido é total. Se o jogador de basquete é especialista em tocos, por que não tornar seu nome sinônimo? O mesmo acontece com outras gírias. Quando saímos mais cedo do trabalho é comum falarmos “hoje dei um Ronaldinho no trampo e vazei”. Olha para um lado, toca para o outro e vai para casa antes que alguém o veja, meu camarada.

E nos entendemos muito bem falando dessa maneira. É até mais legal, único, original. Nos dá o sentimento de exclusividade (que estou destruindo agora, compartilhando a expressão).

Gosto de Garnett por que é real. A coragem para se aproximar de alguém que nos interessa, dizer oi, puxar conversa ou convidar para um drink e uma dança desengonçada é a mesma necessária para furar a defesa adversária driblando, infiltrar o garrafão e tentar a cesta. Às vezes tomamos toco. Bloqueio. Rejeição. Porta fechada para você, amigão. Às vezes o toco é de um negrão de mais de dois metros que grita impropérios na sua cara. O não de alguém pode ser tão ruim quanto. Daí vem o “Garnett”.

A vida é feita desses momentos, de Garnetts inesperados e doloridos. Devemos superá-los, aprender com eles. É como um jogo de basquete, existem erros e acertos. E tempo suficiente para se recuperar. Existem bandejas, lances livres, passes incríveis. Também faltas duras, tocos humilhantes. E aqueles momentos inesquecíveis, como as cestas de três pontos. Ah! Que beleza são as cestas de três pontos do meio da quadra com o cronometro zerado, não?

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Meu amor

Nunca fui daqueles que esperam o fim de semana como quem espera a pessoa amada no aeroporto. Ansiosos, palpitantes, com o coração saindo pela boca. Alguns já começam a sentir o sabor da porção de frango à passarinho e da cerveja gelada na quarta-feira, idealizando cenários perfeitos para que a santíssima trindade dos dias –  sexta, sábado e domingo –  não seja desperdiçada.

Me aposentei cedo nesse negócio de noite, balada e curtição. Não que eu tenha tido uma carreira sólida, mas creio que cheguei a uma fase em que minhas aparições estão cada vez mais escassas, ora aqui, ora ali, como um jogador em fim de carreira que aparece de vez em quando em um jogo comemorativo do tipo amigos de fulano VS amigos de beltrano.

O sofá tem sido meu companheiro inseparável. Os amigos, substituí por comida, assim como a namorada, que me vem em forma de uma carinhosa manta, ou um acolhedor edredom. A chave de ouro é um filme qualquer, seja um clássico ou um dos que temos vergonha de gostar, mas nos divertimos até mais que os clássicos. Voilá, está feita a noite de sábado, sem remorso algum.

Outro dia estava assistindo um desses filmes da categoria “vergonha de falar para os outros que eu escolhi assistir”. Esses que a gente nunca colocaria no nosso top 50 ou citaria entusiasmado em uma conversa sobre os últimos que vimos. O problema, no entanto, era que além de vergonhoso, o filme era ruim. Fui me obrigando a continuar, entorpecido pelas batatinhas cebola e salsa, mas o não definitivo para aquela obra apareceu no diálogo seguinte.

A cena é de término de relacionamento. A mocinha, linda de morrer, mas com algumas atitudes estranhas e miolos a menos, se vira para o galã, um rapaz meio banana e inexpressivo, e brada: “Ninguém nunca vai te amar como eu te amo!”. Tan-dan! Música de frase impactante, foco no olhar dela e depois no dele, arrependido. Ela sai vencedora, poderosa e de nariz em pé, orgulhosa de sua fala destruidora. Ele, desolado, finalmente se dá conta da bobagem que fez. Não sei como termina.

O problema é que eu entendi tudo ao contrário. Para mim, o invés da moça sair por cima, como era o intuito do filme, ela foi realmente canalha em sua colocação. Incluindo o fato de que nenhum personagem era cativante e é bem provável que no final (que eu não assisti) eles tenham ficado juntos com um beijo bonito no Central Park ou na Times Square, esse foi o pecado mortal.

A frase reflete o egoísmo gigante que vivemos hoje em dia, algo que se espalha até em áreas como o relacionamento, o amor. Além de ser uma chantagem emocional óbvia, o que já me motivaria, se eu fosse o tal galã bananão, a sair feliz da vida de lá, sabendo que o término foi a escolha certa, é uma frase que supõe banalidade. A mocinha acha natural, assim como muitas pessoas que falam esse tipo de coisa, afinal de contas, como amar alguém pode ser ruim? É uma simples demonstração de sentimentos.

“Ninguém nunca vai te amar como eu te amo” é a fala de alguém que não se importa com o outro e vive uma relação unilateral. Como alguém poderia te amar? Eu sou o(a) melhor em te amar! Você nunca vai conseguir ter alguém como eu! A pessoa se coloca superior e rebaixa o outro, que é incapaz de receber amor. A violência psicológica da frase é tratada com normalidade no filme, como algo positivo, um alerta para o personagem que estava perdendo a grande chance da vida, supostamente. O egoísmo absurdo que aquilo mostra é ignorado.

Mesmo com o filme nos primeiros vinte minutos, desisti daquilo e fui procurar outra coisa para fazer, igualmente sem remorso. Sai com amigos, de carne e osso, para comer frango à passarinho e tomar cerveja gelada. Foi ótimo, por mais que eu goste do meu sofá e do meu edredom. Amor tem para todo mundo.

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