Meu amor

Nunca fui daqueles que esperam o fim de semana como quem espera a pessoa amada no aeroporto. Ansiosos, palpitantes, com o coração saindo pela boca. Alguns já começam a sentir o sabor da porção de frango à passarinho e da cerveja gelada na quarta-feira, idealizando cenários perfeitos para que a santíssima trindade dos dias –  sexta, sábado e domingo –  não seja desperdiçada.

Me aposentei cedo nesse negócio de noite, balada e curtição. Não que eu tenha tido uma carreira sólida, mas creio que cheguei a uma fase em que minhas aparições estão cada vez mais escassas, ora aqui, ora ali, como um jogador em fim de carreira que aparece de vez em quando em um jogo comemorativo do tipo amigos de fulano VS amigos de beltrano.

O sofá tem sido meu companheiro inseparável. Os amigos, substituí por comida, assim como a namorada, que me vem em forma de uma carinhosa manta, ou um acolhedor edredom. A chave de ouro é um filme qualquer, seja um clássico ou um dos que temos vergonha de gostar, mas nos divertimos até mais que os clássicos. Voilá, está feita a noite de sábado, sem remorso algum.

Outro dia estava assistindo um desses filmes da categoria “vergonha de falar para os outros que eu escolhi assistir”. Esses que a gente nunca colocaria no nosso top 50 ou citaria entusiasmado em uma conversa sobre os últimos que vimos. O problema, no entanto, era que além de vergonhoso, o filme era ruim. Fui me obrigando a continuar, entorpecido pelas batatinhas cebola e salsa, mas o não definitivo para aquela obra apareceu no diálogo seguinte.

A cena é de término de relacionamento. A mocinha, linda de morrer, mas com algumas atitudes estranhas e miolos a menos, se vira para o galã, um rapaz meio banana e inexpressivo, e brada: “Ninguém nunca vai te amar como eu te amo!”. Tan-dan! Música de frase impactante, foco no olhar dela e depois no dele, arrependido. Ela sai vencedora, poderosa e de nariz em pé, orgulhosa de sua fala destruidora. Ele, desolado, finalmente se dá conta da bobagem que fez. Não sei como termina.

O problema é que eu entendi tudo ao contrário. Para mim, o invés da moça sair por cima, como era o intuito do filme, ela foi realmente canalha em sua colocação. Incluindo o fato de que nenhum personagem era cativante e é bem provável que no final (que eu não assisti) eles tenham ficado juntos com um beijo bonito no Central Park ou na Times Square, esse foi o pecado mortal.

A frase reflete o egoísmo gigante que vivemos hoje em dia, algo que se espalha até em áreas como o relacionamento, o amor. Além de ser uma chantagem emocional óbvia, o que já me motivaria, se eu fosse o tal galã bananão, a sair feliz da vida de lá, sabendo que o término foi a escolha certa, é uma frase que supõe banalidade. A mocinha acha natural, assim como muitas pessoas que falam esse tipo de coisa, afinal de contas, como amar alguém pode ser ruim? É uma simples demonstração de sentimentos.

“Ninguém nunca vai te amar como eu te amo” é a fala de alguém que não se importa com o outro e vive uma relação unilateral. Como alguém poderia te amar? Eu sou o(a) melhor em te amar! Você nunca vai conseguir ter alguém como eu! A pessoa se coloca superior e rebaixa o outro, que é incapaz de receber amor. A violência psicológica da frase é tratada com normalidade no filme, como algo positivo, um alerta para o personagem que estava perdendo a grande chance da vida, supostamente. O egoísmo absurdo que aquilo mostra é ignorado.

Mesmo com o filme nos primeiros vinte minutos, desisti daquilo e fui procurar outra coisa para fazer, igualmente sem remorso. Sai com amigos, de carne e osso, para comer frango à passarinho e tomar cerveja gelada. Foi ótimo, por mais que eu goste do meu sofá e do meu edredom. Amor tem para todo mundo.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s