Arquivo do mês: maio 2016

Edvaldo

Distraído na entrada do prédio, assobiando alguma música chiclete de qualidade questionável, sou surpreendido por Carlos, o porteiro da tarde, que vem com notícias péssimas. “Edvaldo morreu ontem”, diz de dentro da cabininha, parando por um segundo de batucar a tela de seu celular.

Olho assustado. Edvaldo? Não pode ser. Edvaldo é muito jovem para morrer, deve ter lá seus 45 anos, se muito. E outra, é porteiro antigo, da velha guarda do prédio, folclórico. Esses não morrem, se aposentam com festinha na portaria e vaquinha de bota fora. Mas Carlos confirma, pesaroso. Caiu na rua e bateu a cabeça, deu piripaque, foi direto para o hospital. Dez dias na UTI e foi isso.

Penso vários palavrões e falo só alguns. A gente não espera que o porteiro vá morrer assim, como os outros morrem. O porteiro entrega as cartas e fala de futebol. O porteiro dorme de madrugada e a gente grita lá da rua para acordar. Interfonamos para ele deixar o Gol preto entrar na garagem. Ele interfona para a gente ir pegar a pizza. Tem que ser isso, sem esse papo de morrer que, francamente, não está com nada.

E o Edvaldo ainda? Não pode. Eu era fã daquele baixinho atacarrado. Seu sorriso fácil, o sarro diário. A primeira vez que o vi, vestia uma camiseta da banda Calcinha Preta, adquirida, segundo ele, em uma pechincha num bacião do Largo da Batata. Mais para frente o sindico definiu que os porteiros vestiriam camisa social e calça, uma atrocidade, mas nem assim o Ed deixou de ser o Ed.

Ele ainda tinha uma inconfundível marca, o edvaldês. Sua língua própria, uma mistura de português com sotaque cearense e gírias totalmente inventadas por ele. Tudo isso embalado por um ritmo de fala que faria inveja a qualquer repentista ou vocalista de banda de heavy metal. Era passar pela portaria que lá vinha o Edvaldo metralhando um edvaldês incompreensível seguido de gargalhada. Eu respondia qualquer bobagem e ria junto, em uma conversa improvisada. Às vezes, passando pelo boteco da esquina, avistava o Edvaldo, copo na mão e conversa fiada. Ele me via e, de primeira, mandava:“Ô Pedrão, hoje só amanhã!”.

Ele era meu preferido, mas sinceramente, talvez isso não valha de nada. Nunca falei isso a ele. Nem fiquei sabendo que estava internado. Não fui ao velório ou ao enterro, não liguei para nenhum parente para prestar condolências. Nem sei se tinha parentes. Fico matutando isso enquanto escrevo essa meia dúzia de palavras que não servem para muito.

Me sinto mal e penso que falei com Edvaldo por quase todos os dias durante anos, mas mesmo assim, pouco sabia sobre ele. O via sempre, muito mais que familiares ou amigos. Ele me acompanhou crescendo, da pré-adolescência até a vida adulta, mas nunca seríamos convidados para o aniversário um do outro. Ele abriu o portão para todos que vieram em casa, me ajudou a sair quando quebrei a perna, e não sei se era casado, se tinha filhos. É uma proximidade gigante e, ao mesmo tempo, uma distância equivalente.

No elevador, no dia seguinte, leio o obituário. Seu nome em negrito, Edvaldo Severino Alguma-Coisa Tavares. Dividíamos o mesmo sobrenome e eu nunca soube. Talvez fossemos até parentes. Aquilo me atinge em cheio. Porra primo Edvaldo, que cagada.

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No meio do caminho, um passarinho

Os dias em que trabalho em casa são felizmente muito monótonos. Vez ou outra algo de marcante acontece, como um louco gritando na rua ou um filme ruim reprisando pela milésima vez na televisão, o que me faz abandonar o trabalho e me dar de presente uma tarde de folga e uma madrugada correndo atrás do prejuízo. Fora isso, é sempre a mesma coisa. Horas sentado de frente para um computador, batucando teclas e escapando de vez em sempre para redes sociais e páginas de conhecimentos inúteis no ciberespaço.

Para a minha surpresa, no entanto, ontem foi um desses raros dias com algo marcante na calmaria da tarde em casa. Algo não, alguém. Numa dessas pausas de procrastinação, fui à cozinha tomar um copo de suco e decidi esticar as pernas e respirar o ar fresco da área de serviço. Antes que soe tolo para o leitor de fora, devo dizer que nós paulistas somos assim, pegamos trânsito para ir até uma academia pedalar em bicicletas que não se movem e vamos atrás de ar puro na área de serviço.

Na realidade, a única coisa estranha foi o que vi quando cheguei lá, um pequeno pássaro verde passeando descompromissado pelo piso. A estranheza não foi pelo animal em si, mas pelo local em que ele se encontrava. Por anos minha área de serviço foi local de aterrissagens de mariposas peludas, baratas voadoras e bitucas de cigarro vindas de apartamentos mais altos (ou de algum anjo tabagista e porcalhão, nunca tirei o ocorrido a limpo). Porém, de fato, durante todos os anos em que moro no mesmo apartamento, nada tão belo havia me visitado pela janela da área.

Era um passarinho verde com detalhes vermelhos na nuca e pequenos olhos pretos, como sementes de chia. Ele percebeu que era observado e balançou sua cauda para os lados, dando ritmados passos para longe de mim. Pensei então em evidenciar meu status amigável, oferecendo-lhe comida, mas não consegui achar nada que pudesse agradar o bicho em uma rápida vasculhada na cozinha. Sem ideias, peguei um punhado de alho granulado e joguei na direção dele, que se esquivou e patinou para trás da máquina de lavar com um olhar assustado. Pude ler em seu semblante algo como: “o que você está fazendo, mano? Me deixa em paz, sai daqui.”.

Perdi o bichinho de vista. Assoviei e tentei chamá-lo de volta, mas o pequeno havia se enfiado atrás da máquina de lavar como uma criança que chora escondida. Afastei um pouco o eletrodoméstico e o vi junto à parede e em volta das bolas de poeira que se acumulavam. Quis pegá-lo com cuidado e devolvê-lo para a natureza, mas não prossegui com esse pensamento heroico e um tanto irreal. Sou mais do tipo que enclausura mariposas em caixas de sapatos para depois sacudi-las na janela rezando para que não voltem voando na minha cara.

Resolvi deixar o pássaro ali e observar de tempos em tempos se havia se movido. Fiz uma pequena trilha com farelos de torrada (após rápida pesquisa na cozinha, imaginei que seria melhor que alho, e agora, escrevendo esse texto, me lembrei de frutas. Como não pensei em frutas?). Fechei as portas por perto e dei apenas uma saída para meu amigo, a enorme janela escancarada bem em frente. Em meus primeiros retornos ele continuava sem se mover, encolhido e me encarando com seus olhinhos negros. Tentei empurrar a máquina para ver se causava alguma reação, mas tomei um choque de chacoalhar o corpo inteiro, o que julguei ser um aviso divino para eu ter paciência.

Voltei algum tempo depois e, ao esticar o pescoço para ver atrás da máquina, só avistei as feias bolas de poeira, nada verde ou bonito. Coloquei tudo no lugar, abri as portas e mantive a janela aberta, para o caso de o passarinho querer voltar. Não é que eu não goste da monotonia, mas um passarinho às vezes vai bem.

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