Edvaldo

Distraído na entrada do prédio, assobiando alguma música chiclete de qualidade questionável, sou surpreendido por Carlos, o porteiro da tarde, que vem com notícias péssimas. “Edvaldo morreu ontem”, diz de dentro da cabininha, parando por um segundo de batucar a tela de seu celular.

Olho assustado. Edvaldo? Não pode ser. Edvaldo é muito jovem para morrer, deve ter lá seus 45 anos, se muito. E outra, é porteiro antigo, da velha guarda do prédio, folclórico. Esses não morrem, se aposentam com festinha na portaria e vaquinha de bota fora. Mas Carlos confirma, pesaroso. Caiu na rua e bateu a cabeça, deu piripaque, foi direto para o hospital. Dez dias na UTI e foi isso.

Penso vários palavrões e falo só alguns. A gente não espera que o porteiro vá morrer assim, como os outros morrem. O porteiro entrega as cartas e fala de futebol. O porteiro dorme de madrugada e a gente grita lá da rua para acordar. Interfonamos para ele deixar o Gol preto entrar na garagem. Ele interfona para a gente ir pegar a pizza. Tem que ser isso, sem esse papo de morrer que, francamente, não está com nada.

E o Edvaldo ainda? Não pode. Eu era fã daquele baixinho atacarrado. Seu sorriso fácil, o sarro diário. A primeira vez que o vi, vestia uma camiseta da banda Calcinha Preta, adquirida, segundo ele, em uma pechincha num bacião do Largo da Batata. Mais para frente o sindico definiu que os porteiros vestiriam camisa social e calça, uma atrocidade, mas nem assim o Ed deixou de ser o Ed.

Ele ainda tinha uma inconfundível marca, o edvaldês. Sua língua própria, uma mistura de português com sotaque cearense e gírias totalmente inventadas por ele. Tudo isso embalado por um ritmo de fala que faria inveja a qualquer repentista ou vocalista de banda de heavy metal. Era passar pela portaria que lá vinha o Edvaldo metralhando um edvaldês incompreensível seguido de gargalhada. Eu respondia qualquer bobagem e ria junto, em uma conversa improvisada. Às vezes, passando pelo boteco da esquina, avistava o Edvaldo, copo na mão e conversa fiada. Ele me via e, de primeira, mandava:“Ô Pedrão, hoje só amanhã!”.

Ele era meu preferido, mas sinceramente, talvez isso não valha de nada. Nunca falei isso a ele. Nem fiquei sabendo que estava internado. Não fui ao velório ou ao enterro, não liguei para nenhum parente para prestar condolências. Nem sei se tinha parentes. Fico matutando isso enquanto escrevo essa meia dúzia de palavras que não servem para muito.

Me sinto mal e penso que falei com Edvaldo por quase todos os dias durante anos, mas mesmo assim, pouco sabia sobre ele. O via sempre, muito mais que familiares ou amigos. Ele me acompanhou crescendo, da pré-adolescência até a vida adulta, mas nunca seríamos convidados para o aniversário um do outro. Ele abriu o portão para todos que vieram em casa, me ajudou a sair quando quebrei a perna, e não sei se era casado, se tinha filhos. É uma proximidade gigante e, ao mesmo tempo, uma distância equivalente.

No elevador, no dia seguinte, leio o obituário. Seu nome em negrito, Edvaldo Severino Alguma-Coisa Tavares. Dividíamos o mesmo sobrenome e eu nunca soube. Talvez fossemos até parentes. Aquilo me atinge em cheio. Porra primo Edvaldo, que cagada.

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1 comentário

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Uma resposta para “Edvaldo

  1. Verdade Pedro, quantas pessoas estão a nossa volta e não sabemos da sua vida ou pelo menos procurarmos conhecer um pouco mais da sua história. É realmente para refletir, eu também tenho alguns “Edvaldos” na minha vida, vou procurar conhecê-los mais. Sinto muito pelo seu Edvaldo.

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