Arquivo do mês: julho 2016

O palhaço no cabeleireiro

Às vezes decido, só pra alimentar minha querida amiga procrastinação, que é hora de cortar o cabelo. Nesses momentos, bato pé até o digníssimo salão do senhor Fernando, um cabra arretado que dá um trato nas cabeleiras aqui do bairro e joga conversa fora com qualquer despercebido que passar na rua.

Chego sem marcar hora e pergunto se dá pra cortar, no que ele sempre responde: “dááá”, assim mesmo, com o A alongado, como quem diz “óbvio que dá, sempre dá”. Me ajeito no canto e espero minha vez enquanto ele arruma o telhado e a bigodeira de um vovô barrigudo. Depois me sento e zefini, vejo meu cabelo caindo pelos ombros e se espalhando pelo chão.

Da última vez que fui lá, tudo corria normalmente, até que um palhaço apareceu. Veja, não era um sujeito que não gosto, um vizinho que não vou com a cara, era realmente um homem vestido com roupas de palhaço, um profissional da palhaçada. Ele deu passos desajeitados pra dentro do salão com seus enormes sapatos coloridos e fez uma saudação como quem entra em um picadeiro.

Confesso que fiquei sem jeito. A gente nunca sabe o que faz quando aparece um palhaço fora do ambiente de palhaço. Por exemplo, não é pra rir do palhaço no metrô, é? Ele está voltando pra casa depois de um longo dia de piadas, não me parece simpático dar risada. No cabeleireiro é igual, ele foi lá porque precisava, como qualquer um, cortar o cabelo, nem que fossem aqueles tufos coloridos que eles têm ao lado da cabeça.

Fiquei olhando com auxílio do espelho, tentando parecer invisível. A última coisa que eu queria era que aquele cara começasse a interagir comigo. Eu teria que fingir que sou legal e seria um desastre. Pra minha sorte, nada disso aconteceu. Ele se sentou e se livrou da peruca colorida, revelando alguns fios espalhados em cima de uma cabeça quase careca. Depois abriu a carteira, retirou uma foto do Brad Pitt e entregou pro Jailson, que também corta cabelos no salão.

Todos riram muito, então eu também ri, aliviado por ser um mero espectador. “Se conseguir fazer igual, te levo lá pro circo no lugar do mágico!”, disse o palhaço, vestindo o avental em cima de seu macacão alegre. “E aproveita pra dar uma aparada no Bolonhesa aqui”. Olhei no espelho pra entender melhor aquela conversa. O palhaço se abaixou, começo a passar a mão no ar e disse: “Não é mesmo garoto?! Não é Bolonhesa?! Isso mesmo!”, e se virou pro Jailson, “pode passar a mão, ele não morde…”. Jailson riu encolhendo o pescoço e balançando os ombros: “Oxeee!”.

O cachorro imaginário ainda recebeu água (essa, de verdade) de seu dono antes do corte, o que gerou em todos uma nova onda de gargalhadas. Nessa hora, meu cabelo já estava mais no chão do que na cabeça, e outro cliente chegou. Fernando disse que dava, claro que dava, para cortar o cabelo dele, e finalizou o meu num instante.

Olhei minha cabeça de ovo no espelho, ajeitei o topete e fui ao banheiro. Quando voltei, vi o novo cliente esbravejando algo sobre política com a cara vermelha e o olho esbugalhado e, do lado oposto, o palhaço dando uma flor pra uma das manicures.

 

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Sobe

Moro no segundo andar de um prédio antigo e, muitas vezes, não sem culpa, subo de elevador. Preste atenção no que digo, não sou um bitolado, sinto remorso, mesmo que já dentro da cabininha, durante os sete segundos (sim, eu contei) que levam do térreo ao meu destino final. Penso que poderia estar usando as escadas, exercitando coxas e batatas da perna, mas em vez disso estou parado, lendo algum aviso sobre bitucas de cigarro no jardim. Óbvio que pensar não serve para nada, penso diariamente que poderia ser um Beatle ou o camisa 10 do Corinthians, e isso nunca chegou perto de acontecer.

Evidente que subir pelas escadas já aconteceu, principalmente quando o elevador quebra e não me restam alternativas. O problema é que aquela caixa metálica é chamativa demais. Às vezes chego disposto a subir andando, mas a vejo ali, paradinha, a luz dourada saindo pela fresta da porta, como se fosse um portão do Éden, dizendo “vem… vem…”, e eu vou.

Eu sei que é feio, que eu poderia muito bem subir sei lá quantos degraus (esses eu não contei, sabe como é), mas é quem eu sou. Não ando de bicicleta, como muito mais carne que vegetais, e uso o elevador. A escolha me atinge principalmente quando dou de cara com um vizinho e vejo o botão 11 ou 12 pressionado. Estico meu braço e aperto o 2, sabendo que sou um ser humano pior. O silêncio que segue me deixa espaço para imaginar o que ele esta pensando, provavelmente algo como: “Sério? Dois andares? A princesa não pode subir dois andares?”. Antes de sair, observo de relance sua expressão e confirmo que era exatamente isso que ele pensava.

O engraçado é que em outros lugares uso as escadas, talvez por receio de socializações abruptas ou de uma repentina pane nas engrenagens. Claro que isso pode acontecer no meu prédio, mas seria como ficar preso em casa, em um local conhecido, muito diferente de um elevador qualquer. Sem contar que fora de casa, nesses prédios comerciais, há ascensoristas, figuras tenebrosas e pouco confiáveis, que, volta e meia, podem sabotar sua ida à lanchonete e mandar você direto para o andar da gerência.

Fico com meu elevador mesmo. Bonito, ocasionalmente cheiroso, sem a Garota de Ipanema em versão instrumental chic, e que sobe dois andares com elegância ímpar. Sim, conseguiria usar as escadas, me exercitar, gastar a minha energia em vez da de todos nós. Não há escapatória para o sentimento de culpa. Sinto que, por ter plena consciência de tudo isso, devo ser um sujeito tão elevado quanto o maldito ciclista do nono andar, que sobe todo dia com sua magrela nas costas e me dá bom dia enquanto abro a porta do elevador.

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