Sobe

Moro no segundo andar de um prédio antigo e, muitas vezes, não sem culpa, subo de elevador. Preste atenção no que digo, não sou um bitolado, sinto remorso, mesmo que já dentro da cabininha, durante os sete segundos (sim, eu contei) que levam do térreo ao meu destino final. Penso que poderia estar usando as escadas, exercitando coxas e batatas da perna, mas em vez disso estou parado, lendo algum aviso sobre bitucas de cigarro no jardim. Óbvio que pensar não serve para nada, penso diariamente que poderia ser um Beatle ou o camisa 10 do Corinthians, e isso nunca chegou perto de acontecer.

Evidente que subir pelas escadas já aconteceu, principalmente quando o elevador quebra e não me restam alternativas. O problema é que aquela caixa metálica é chamativa demais. Às vezes chego disposto a subir andando, mas a vejo ali, paradinha, a luz dourada saindo pela fresta da porta, como se fosse um portão do Éden, dizendo “vem… vem…”, e eu vou.

Eu sei que é feio, que eu poderia muito bem subir sei lá quantos degraus (esses eu não contei, sabe como é), mas é quem eu sou. Não ando de bicicleta, como muito mais carne que vegetais, e uso o elevador. A escolha me atinge principalmente quando dou de cara com um vizinho e vejo o botão 11 ou 12 pressionado. Estico meu braço e aperto o 2, sabendo que sou um ser humano pior. O silêncio que segue me deixa espaço para imaginar o que ele esta pensando, provavelmente algo como: “Sério? Dois andares? A princesa não pode subir dois andares?”. Antes de sair, observo de relance sua expressão e confirmo que era exatamente isso que ele pensava.

O engraçado é que em outros lugares uso as escadas, talvez por receio de socializações abruptas ou de uma repentina pane nas engrenagens. Claro que isso pode acontecer no meu prédio, mas seria como ficar preso em casa, em um local conhecido, muito diferente de um elevador qualquer. Sem contar que fora de casa, nesses prédios comerciais, há ascensoristas, figuras tenebrosas e pouco confiáveis, que, volta e meia, podem sabotar sua ida à lanchonete e mandar você direto para o andar da gerência.

Fico com meu elevador mesmo. Bonito, ocasionalmente cheiroso, sem a Garota de Ipanema em versão instrumental chic, e que sobe dois andares com elegância ímpar. Sim, conseguiria usar as escadas, me exercitar, gastar a minha energia em vez da de todos nós. Não há escapatória para o sentimento de culpa. Sinto que, por ter plena consciência de tudo isso, devo ser um sujeito tão elevado quanto o maldito ciclista do nono andar, que sobe todo dia com sua magrela nas costas e me dá bom dia enquanto abro a porta do elevador.

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1 comentário

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Uma resposta para “Sobe

  1. angela

    Eu sou assim Pedro!

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