O palhaço no cabeleireiro

Às vezes decido, só pra alimentar minha querida amiga procrastinação, que é hora de cortar o cabelo. Nesses momentos, bato pé até o digníssimo salão do senhor Fernando, um cabra arretado que dá um trato nas cabeleiras aqui do bairro e joga conversa fora com qualquer despercebido que passar na rua.

Chego sem marcar hora e pergunto se dá pra cortar, no que ele sempre responde: “dááá”, assim mesmo, com o A alongado, como quem diz “óbvio que dá, sempre dá”. Me ajeito no canto e espero minha vez enquanto ele arruma o telhado e a bigodeira de um vovô barrigudo. Depois me sento e zefini, vejo meu cabelo caindo pelos ombros e se espalhando pelo chão.

Da última vez que fui lá, tudo corria normalmente, até que um palhaço apareceu. Veja, não era um sujeito que não gosto, um vizinho que não vou com a cara, era realmente um homem vestido com roupas de palhaço, um profissional da palhaçada. Ele deu passos desajeitados pra dentro do salão com seus enormes sapatos coloridos e fez uma saudação como quem entra em um picadeiro.

Confesso que fiquei sem jeito. A gente nunca sabe o que faz quando aparece um palhaço fora do ambiente de palhaço. Por exemplo, não é pra rir do palhaço no metrô, é? Ele está voltando pra casa depois de um longo dia de piadas, não me parece simpático dar risada. No cabeleireiro é igual, ele foi lá porque precisava, como qualquer um, cortar o cabelo, nem que fossem aqueles tufos coloridos que eles têm ao lado da cabeça.

Fiquei olhando com auxílio do espelho, tentando parecer invisível. A última coisa que eu queria era que aquele cara começasse a interagir comigo. Eu teria que fingir que sou legal e seria um desastre. Pra minha sorte, nada disso aconteceu. Ele se sentou e se livrou da peruca colorida, revelando alguns fios espalhados em cima de uma cabeça quase careca. Depois abriu a carteira, retirou uma foto do Brad Pitt e entregou pro Jailson, que também corta cabelos no salão.

Todos riram muito, então eu também ri, aliviado por ser um mero espectador. “Se conseguir fazer igual, te levo lá pro circo no lugar do mágico!”, disse o palhaço, vestindo o avental em cima de seu macacão alegre. “E aproveita pra dar uma aparada no Bolonhesa aqui”. Olhei no espelho pra entender melhor aquela conversa. O palhaço se abaixou, começo a passar a mão no ar e disse: “Não é mesmo garoto?! Não é Bolonhesa?! Isso mesmo!”, e se virou pro Jailson, “pode passar a mão, ele não morde…”. Jailson riu encolhendo o pescoço e balançando os ombros: “Oxeee!”.

O cachorro imaginário ainda recebeu água (essa, de verdade) de seu dono antes do corte, o que gerou em todos uma nova onda de gargalhadas. Nessa hora, meu cabelo já estava mais no chão do que na cabeça, e outro cliente chegou. Fernando disse que dava, claro que dava, para cortar o cabelo dele, e finalizou o meu num instante.

Olhei minha cabeça de ovo no espelho, ajeitei o topete e fui ao banheiro. Quando voltei, vi o novo cliente esbravejando algo sobre política com a cara vermelha e o olho esbugalhado e, do lado oposto, o palhaço dando uma flor pra uma das manicures.

 

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