O timing do aplauso

Ocasionalmente, talvez por karma ou devido a explicações astrológicas complicadas, cometo algum deslize que me assombra por vários dias seguidos. Não é nada grave ou mesmo criminoso, apenas aquela burrada que te faz querer entrar no primeiro buraco que achar, além de manter a constante dúvida em sua cabeça: “como eu pude fazer um negócio desses?”.

Muitos dos problemas estão ligados às regras não faladas da sociedade, aquelas coisas que devemos saber, mas ninguém nos ensina. Algo como não calçar chinelos e vestir camisa regata num concerto de ópera; ou não cuspir a comida no prato, caso o casal de amigos que te convidou para jantar tenha exagerado na pimenta. Aqueles pequenos erros que não são uma tragédia completa, mas que causam um sentimento bastante vergonhoso.

Pois bem, posso dizer que não sou exatamente a pessoa com mais facilidade em seguir essas tais regras subentendidas e, dia desses, fui novamente castigado por isso. Fui ao teatro, em uma apresentação um tanto elaborada e cheia de detalhes impressionantes, e caí em uma das armadilhas mais comuns em cerimônias como essa, o aplauso fora de hora.

Poderia até me defender aqui e dizer que não foi nada de mais, só que sou um sujeito que preza pela sinceridade e, assim, preciso dizer que foi o pacote completo, palmas entusiasmadas que acompanharam uma não menos empolgada levantada da poltrona. O que posso dizer em minha defesa é que a peça era realmente ótima e que, apesar de não ter terminado naquele momento, já estava merecendo receber meus louvores.

Após três embaraçosos e eternos segundos em que percebi que ninguém me acompanharia e em que notei um ligeiro ar de pânico no rosto dos atores, me abaixei discretamente e afundei na cadeira carregando um sorriso amarelo e fingindo que nada havia acontecido. Ao final, só aplaudi com certeza absoluta, após o salão estar tomado de ovações e os atores estarem executando seu famoso ritual de gratidão.

É preciso deixar claro, também, que há casos mais graves de falta de timing no aplauso que o meu. Por exemplo, aqueles que não se dão conta da bola fora e seguem batendo as mãos de olhos fechados até sabe-se lá quando. Existem também aqueles que, não satisfeitos em errar o tempo, incentivam as pessoas próximas a se juntar ao coro com gritinhos de “vamo lá, galera! Borá aplaudir!”. Mas é provável que o pior caso seja o do sujeito que, além de aplaudir na hora errada, ainda se acusa. Aquele camarada que bate duas palmas, cria um silêncio constrangedor e o usa para dizer baboseiras se explicando pelo erro de timing em meio a uma multidão de pessoas que só querem que ele cale a boca.

É um erro honesto, do bem. Em formaturas excruciantemente longas, em discursos de padrinhos de casamentos ou em qualquer teatro por aí, é certo que trombaremos com o aplauso adiantado. Pode acontecer com qualquer um, até com você. Comigo também, claro, apesar de estar me prevenindo. Agora, em qualquer ocasião que peça aplausos, minhas mãos estarão bem guardadas nos bolsos.

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