Arquivo do mês: maio 2017

Introdução à pelada

Gostar de futebol não tem nada a ver com jogar futebol. Não estou entrando no mérito de ser bom ou ruim, você pode ser aquele camarada que tem a movimentação de uma senhora idosa e a habilidade de um bloco de cimento, mas, se entra nas quatro linhas e joga, você entende o que estou dizendo. Também não pretendo falar sobre jogadores profissionais, coisa que não cabe a mim. Meu departamento é outro. Um que estive durante toda a vida, ralando joelhos, quebrando braços, contundindo canelas: a pelada.

Digo que gostar não tem relação com jogar porque, em resumo, pelada é futebol, mas não é. Os elementos são praticamente os mesmos – a bola, os gols – mas se você for analisar a fundo, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Não adianta saber tudo de 4-4-2, 3-5-1, nó tático, marcação por zona, falso 9 ou ocupação de espaço. Você pode ser aquele cara que decora a escalação do Bangu campeão carioca de 66, ou que sabe todos os técnicos que passaram pela seleção do Chile. Na pelada, meu amigo, isso não serve de absolutamente nada.

Pra começo de conversa, as regras são outras e quem as aplica não é o juiz, mas cada um dos jogadores. Os lances são debatidos na hora, com apresentação de argumentos, apelos para o emocional e gritos de ódio. É evidente que o poder no apito varia em relação a cada participante da pelada. Alguns têm mais autoridade que outros e, normalmente, a decisão dessa turma, composta pelo cara das finanças, o tiozinho experiência, e O Churrasqueiro, tem mais peso.

Mas há um agravante. Além das regras serem outras, cada pelada tem as suas. Próprias, específicas e imutáveis (às vezes, mas não vamos complicar). Se existem milhões de peladas ao redor do Brasil, milhões de livros de regras às acompanham. Algumas usam a velha contagem de 10 minutos ou dois gols, que o próprio nome já explica: o jogo acaba após dez minutos ou quando algum time marcar duas vezes. Outras, menos democráticas, utilizam o autoexplicativo “ganhou ficou”.

Há goleiros que não pagam, pelo simples fato de serem goleiros e isso já ser prejuízo o bastante. Bolas na mão são casos a parte. Algumas peladas punem o ato, se for obviamente intencional, com pênalti, independentemente do lugar do campo em que o golpe de voleibol foi feito. O número de jogadores também varia, dependendo do fôlego dos atletas. Podemos ter peladas superlotadas, com 15 de cada lado, trombando ou esperando as bolas paradinhos, como bonecos de pebolim.

O fato é que, além de não ser futebol propriamente dito, uma pelada também nunca é igual a outra. Mudar de pelada é mais ou menos como mudar de emprego, é preciso uma readaptação, muitas vezes traumática. Tudo é incerto, inconstante. O nome muda dependendo do seu estado natal. Há quem diga bater uma bola, tirar um contra, fazer um rachão. Na Bahia, o nome é baba (borá bater um baba?). Por isso, só jogando pra entender o que digo. Mas, se você não é dos que joga, te dou a introdução à pelada: juntar um bando de pessoas sem pensar em idade, sexo, classe social ou circunferência da barriga, achar um lugar e chutar uma bola (mas isso também pode variar bastante).

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