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Introdução à pelada

Gostar de futebol não tem nada a ver com jogar futebol. Não estou entrando no mérito de ser bom ou ruim, você pode ser aquele camarada que tem a movimentação de uma senhora idosa e a habilidade de um bloco de cimento, mas, se entra nas quatro linhas e joga, você entende o que estou dizendo. Também não pretendo falar sobre jogadores profissionais, coisa que não cabe a mim. Meu departamento é outro. Um que estive durante toda a vida, ralando joelhos, quebrando braços, contundindo canelas: a pelada.

Digo que gostar não tem relação com jogar porque, em resumo, pelada é futebol, mas não é. Os elementos são praticamente os mesmos – a bola, os gols – mas se você for analisar a fundo, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Não adianta saber tudo de 4-4-2, 3-5-1, nó tático, marcação por zona, falso 9 ou ocupação de espaço. Você pode ser aquele cara que decora a escalação do Bangu campeão carioca de 66, ou que sabe todos os técnicos que passaram pela seleção do Chile. Na pelada, meu amigo, isso não serve de absolutamente nada.

Pra começo de conversa, as regras são outras e quem as aplica não é o juiz, mas cada um dos jogadores. Os lances são debatidos na hora, com apresentação de argumentos, apelos para o emocional e gritos de ódio. É evidente que o poder no apito varia em relação a cada participante da pelada. Alguns têm mais autoridade que outros e, normalmente, a decisão dessa turma, composta pelo cara das finanças, o tiozinho experiência, e O Churrasqueiro, tem mais peso.

Mas há um agravante. Além das regras serem outras, cada pelada tem as suas. Próprias, específicas e imutáveis (às vezes, mas não vamos complicar). Se existem milhões de peladas ao redor do Brasil, milhões de livros de regras às acompanham. Algumas usam a velha contagem de 10 minutos ou dois gols, que o próprio nome já explica: o jogo acaba após dez minutos ou quando algum time marcar duas vezes. Outras, menos democráticas, utilizam o autoexplicativo “ganhou ficou”.

Há goleiros que não pagam, pelo simples fato de serem goleiros e isso já ser prejuízo o bastante. Bolas na mão são casos a parte. Algumas peladas punem o ato, se for obviamente intencional, com pênalti, independentemente do lugar do campo em que o golpe de voleibol foi feito. O número de jogadores também varia, dependendo do fôlego dos atletas. Podemos ter peladas superlotadas, com 15 de cada lado, trombando ou esperando as bolas paradinhos, como bonecos de pebolim.

O fato é que, além de não ser futebol propriamente dito, uma pelada também nunca é igual a outra. Mudar de pelada é mais ou menos como mudar de emprego, é preciso uma readaptação, muitas vezes traumática. Tudo é incerto, inconstante. O nome muda dependendo do seu estado natal. Há quem diga bater uma bola, tirar um contra, fazer um rachão. Na Bahia, o nome é baba (borá bater um baba?). Por isso, só jogando pra entender o que digo. Mas, se você não é dos que joga, te dou a introdução à pelada: juntar um bando de pessoas sem pensar em idade, sexo, classe social ou circunferência da barriga, achar um lugar e chutar uma bola (mas isso também pode variar bastante).

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Banca 2.0

Não sei bem o que aconteceu, mas parece que ultimamente banca de jornal anda com uma mania estranha de grandeza. É cada vez mais raro ver aquelas casinhas metálicas com uma revista aqui e outra ali. Agora é tudo mini shopping center, como se as bancas tivessem apertado aquele botão supersônico dos Power Rangers e se transformado em megazords.

Não foi minha intenção dificultar a vida do leitor com essa citação anos 90, mas é que, pra mim, também está difícil entender essa situação toda. De repente as bancas de jornal, famosas pela pequenez simpática que ostentavam, mandaram tudo ao raio que o parta e decidiram que passariam a vender cachecóis de times, miniaturas de aviões militares, frigobares do Romero Britto, terrenos em Pirapora do Bom Jesus, e todo tipo de treco que parece não ter relação com o conceito banca de jornal.

É a crise do noticiário impresso, dizem. Desde o momento em que o caderno de economia virou banheiro de animal de estimação, e que o caderno de esportes passou a ser usado somente pra embrulhar vasos, os singelos quiosques tiveram que se reinventar. Passaram, então, a vender o que desse na telha.

Acho triste. Lembro da banca do Miguelas, na Vila Beatriz, onde meu pai ia conversar com seus amigos e eu ficava sentado, lendo gibis da Turma da Mônica. Lia todos e os devolvia na prateleira. Miguelas sorria e me dava bolachas maisena, sem se importar se eu pagava, sujava, ou fazia o que fosse com a revistinha. Agora, já imagino o dia em que as bancas de jornal terão catracas, comandas e serviço de valet.

É evidente que não tiro a razão dessa megalomania, é preciso sobreviver. Sou só um pouco nostálgico. Tenho apego às lembranças dos gibis, do chão encardido da banca, da bala de 5 centavos, das figurinhas do Brasileirão de 98. É preciso aceitar que tudo muda, uma hora ou outra, mas, pedindo licença pra soltar um clichêzinho, querer abraçar o mundo às vezes pode acabar com a gente.

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Básico

Enxaguava meu cabelo com o Pantene 2 em 1 quando, assim, no meio daquela usual avalanche de pensamentos aleatórios que a gente tem no banho, me dei conta de que sou um cara bastante ordinário. Não digo isso no sentido homem, branco e hétero, algo que já havia percebido. Digo no sentido mais arrozfeijãobatatafritaebife do negócio, sabe? Sou praticamente um pretinho básico ambulante.

Suspirei enquanto a água quente batia nas minhas costas. Sou o rei do óbvio, bem que minha mãe me avisou. E é verdade. Gosto de pastel de queijo e pizza de mussarela. Sou daqueles que encontram um prato favorito em um restaurante e nunca mais precisam olhar o cardápio. Pra mim, coxinha é sem catupiry, cheddar ou sei lá o que colocam na coxinha hoje em dia. Gosto do clássico.

Pra falar a verdade, não sei bem quando isso aconteceu, se foi gradual, algo de berço, culpa do alinhamento dos planetas ou do meu signo chinês. Só sei que, quando vou ao cabelereiro e o sujeito me pergunta como eu vou querer, respondo que quero cortado mesmo, com tesoura. Se tivesse um carro, provavelmente seria um Gol. Torço pro Corinthians. Sou fã de Beatles. Entende?

E não está fácil ser assim. Os básicos perderam a vez. É um tal de pastel de feijoada pra cá, pizza de strogonoff pra lá, bolo de chiclete acolá. Outro dia, aliás, passando pela Vila Madalena, vi uma loja de balas gourmet (seja lá o que isso signifique). Meu coração acelerou, com medo. Coitada da 7 Belo, da Chita e da Frumello. Onde foi parar Juquinha?

Me dê sorvete de limão, de coco, de chocolate! Saí pra lá com essa lasanha desconstruída de alface e nozes! Eu quero é suco de laranja, pão na chapa, calça jeans e camiseta! Não me venham com esse papo de “nossa, mas você é muito básico”, como se isso fosse um defeito. Do básico vieste, ao básico voltarás.

Voltei mesmo foi ao banho. A sinfonia da água do chuveiro tamborilando os azulejos e o vidro do box ecoava e dispersava meus pensamentos soltos. Na minha frente, o tubo de um litro da Pantene. “Cuidado clássico – cabelos normais”. Nem tudo está perdido, amigos. Vida longa ao básico!

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Preciso dizer

Preciso dizer que, todo sábado, por volta das dez e meia da manhã, um rapaz fedendo a Cheetos embarca no ônibus Parque Continental/Metrô Trianon Masp no segundo ponto da Avenida Jaguaré.

O rapaz veste chuteiras de futebol society azuis, que ele comprou a contragosto, pois preferia pretas. Como estavam fora de linha, teve que se contentar com as coloridas e culpar a gourmetização do futebol. A pelada na mesma noite não deixava que ele adiasse a compra, e seu pé tamanho 40 impedia que ele pedisse algum par emprestado aos amigos, que naturalmente calçam números de acordo com a faixa etária deles, e não com a de um menino no início da puberdade.

O rapaz usa meiões pretos do Corinthians arriados até o meio da canela e, normalmente, está com um short do time inglês Sunderland, comprado por 5 libras na loja Lillywhites, em Piccadilly Circus, Londres. Sua camiseta varia. Às vezes aparece com uma de treino da Portuguesa, cinza e verde, herdada do pai. Outras, uma listrada do Corinthians, de 2013. Também já usou de times europeus e sul-americanos. Tem preferência especial pelas do Arsenal, a do West Ham, a do Estudiantes, a do Celtic e a do Porto.

Carrega nas costas uma sacola esportiva da Adidas e escuta música em fones de ouvido. Seu cabelo está sempre molhado de suor e seu andar é vacilante. Diz bom dia para o motorista e para o cobrador, quando lembra. Usa óculos escuros quando faz sol e um casaco cinza de capuz quando faz frio.

Prefere se sentar no banco da janela, em lugares que não haja ninguém ao lado, pois sabe que é provável que seu odor não seja dos mais agradáveis. Imagina que, quando o vento se torna mais forte, seu cheiro se espalha pelo ônibus e todos torcem o nariz para ele, o rapaz que acabou de jogar duas horas de futebol e está sentado ali, empesteando o ambiente. É bem possível que ele não esteja tão fedido, já que passa desodorante na tentativa de bloquear o cheiro até chegar em casa e tomar banho, mas mesmo assim tende a se sentir o centro das atenções da condução.

O rapaz fica feliz quando o ônibus atravessa o rio e o bodum de esgoto invade as narinas dos passageiros. Imagina que é a mesma sensação de tirar 4 em uma prova e ver o amigo tirar zero. Desce no segundo ponto da Avenida Doutor Arnaldo, para alívio dos que permanecem dentro do ônibus. Caminha alguns minutos, chega em casa, e toma banho.

Acho que não preciso dizer quem é o rapaz.

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O timing do aplauso

Ocasionalmente, talvez por karma ou devido a explicações astrológicas complicadas, cometo algum deslize que me assombra por vários dias seguidos. Não é nada grave ou mesmo criminoso, apenas aquela burrada que te faz querer entrar no primeiro buraco que achar, além de manter a constante dúvida em sua cabeça: “como eu pude fazer um negócio desses?”.

Muitos dos problemas estão ligados às regras não faladas da sociedade, aquelas coisas que devemos saber, mas ninguém nos ensina. Algo como não calçar chinelos e vestir camisa regata num concerto de ópera; ou não cuspir a comida no prato, caso o casal de amigos que te convidou para jantar tenha exagerado na pimenta. Aqueles pequenos erros que não são uma tragédia completa, mas que causam um sentimento bastante vergonhoso.

Pois bem, posso dizer que não sou exatamente a pessoa com mais facilidade em seguir essas tais regras subentendidas e, dia desses, fui novamente castigado por isso. Fui ao teatro, em uma apresentação um tanto elaborada e cheia de detalhes impressionantes, e caí em uma das armadilhas mais comuns em cerimônias como essa, o aplauso fora de hora.

Poderia até me defender aqui e dizer que não foi nada de mais, só que sou um sujeito que preza pela sinceridade e, assim, preciso dizer que foi o pacote completo, palmas entusiasmadas que acompanharam uma não menos empolgada levantada da poltrona. O que posso dizer em minha defesa é que a peça era realmente ótima e que, apesar de não ter terminado naquele momento, já estava merecendo receber meus louvores.

Após três embaraçosos e eternos segundos em que percebi que ninguém me acompanharia e em que notei um ligeiro ar de pânico no rosto dos atores, me abaixei discretamente e afundei na cadeira carregando um sorriso amarelo e fingindo que nada havia acontecido. Ao final, só aplaudi com certeza absoluta, após o salão estar tomado de ovações e os atores estarem executando seu famoso ritual de gratidão.

É preciso deixar claro, também, que há casos mais graves de falta de timing no aplauso que o meu. Por exemplo, aqueles que não se dão conta da bola fora e seguem batendo as mãos de olhos fechados até sabe-se lá quando. Existem também aqueles que, não satisfeitos em errar o tempo, incentivam as pessoas próximas a se juntar ao coro com gritinhos de “vamo lá, galera! Borá aplaudir!”. Mas é provável que o pior caso seja o do sujeito que, além de aplaudir na hora errada, ainda se acusa. Aquele camarada que bate duas palmas, cria um silêncio constrangedor e o usa para dizer baboseiras se explicando pelo erro de timing em meio a uma multidão de pessoas que só querem que ele cale a boca.

É um erro honesto, do bem. Em formaturas excruciantemente longas, em discursos de padrinhos de casamentos ou em qualquer teatro por aí, é certo que trombaremos com o aplauso adiantado. Pode acontecer com qualquer um, até com você. Comigo também, claro, apesar de estar me prevenindo. Agora, em qualquer ocasião que peça aplausos, minhas mãos estarão bem guardadas nos bolsos.

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O palhaço no cabeleireiro

Às vezes decido, só pra alimentar minha querida amiga procrastinação, que é hora de cortar o cabelo. Nesses momentos, bato pé até o digníssimo salão do senhor Fernando, um cabra arretado que dá um trato nas cabeleiras aqui do bairro e joga conversa fora com qualquer despercebido que passar na rua.

Chego sem marcar hora e pergunto se dá pra cortar, no que ele sempre responde: “dááá”, assim mesmo, com o A alongado, como quem diz “óbvio que dá, sempre dá”. Me ajeito no canto e espero minha vez enquanto ele arruma o telhado e a bigodeira de um vovô barrigudo. Depois me sento e zefini, vejo meu cabelo caindo pelos ombros e se espalhando pelo chão.

Da última vez que fui lá, tudo corria normalmente, até que um palhaço apareceu. Veja, não era um sujeito que não gosto, um vizinho que não vou com a cara, era realmente um homem vestido com roupas de palhaço, um profissional da palhaçada. Ele deu passos desajeitados pra dentro do salão com seus enormes sapatos coloridos e fez uma saudação como quem entra em um picadeiro.

Confesso que fiquei sem jeito. A gente nunca sabe o que faz quando aparece um palhaço fora do ambiente de palhaço. Por exemplo, não é pra rir do palhaço no metrô, é? Ele está voltando pra casa depois de um longo dia de piadas, não me parece simpático dar risada. No cabeleireiro é igual, ele foi lá porque precisava, como qualquer um, cortar o cabelo, nem que fossem aqueles tufos coloridos que eles têm ao lado da cabeça.

Fiquei olhando com auxílio do espelho, tentando parecer invisível. A última coisa que eu queria era que aquele cara começasse a interagir comigo. Eu teria que fingir que sou legal e seria um desastre. Pra minha sorte, nada disso aconteceu. Ele se sentou e se livrou da peruca colorida, revelando alguns fios espalhados em cima de uma cabeça quase careca. Depois abriu a carteira, retirou uma foto do Brad Pitt e entregou pro Jailson, que também corta cabelos no salão.

Todos riram muito, então eu também ri, aliviado por ser um mero espectador. “Se conseguir fazer igual, te levo lá pro circo no lugar do mágico!”, disse o palhaço, vestindo o avental em cima de seu macacão alegre. “E aproveita pra dar uma aparada no Bolonhesa aqui”. Olhei no espelho pra entender melhor aquela conversa. O palhaço se abaixou, começo a passar a mão no ar e disse: “Não é mesmo garoto?! Não é Bolonhesa?! Isso mesmo!”, e se virou pro Jailson, “pode passar a mão, ele não morde…”. Jailson riu encolhendo o pescoço e balançando os ombros: “Oxeee!”.

O cachorro imaginário ainda recebeu água (essa, de verdade) de seu dono antes do corte, o que gerou em todos uma nova onda de gargalhadas. Nessa hora, meu cabelo já estava mais no chão do que na cabeça, e outro cliente chegou. Fernando disse que dava, claro que dava, para cortar o cabelo dele, e finalizou o meu num instante.

Olhei minha cabeça de ovo no espelho, ajeitei o topete e fui ao banheiro. Quando voltei, vi o novo cliente esbravejando algo sobre política com a cara vermelha e o olho esbugalhado e, do lado oposto, o palhaço dando uma flor pra uma das manicures.

 

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Sobe

Moro no segundo andar de um prédio antigo e, muitas vezes, não sem culpa, subo de elevador. Preste atenção no que digo, não sou um bitolado, sinto remorso, mesmo que já dentro da cabininha, durante os sete segundos (sim, eu contei) que levam do térreo ao meu destino final. Penso que poderia estar usando as escadas, exercitando coxas e batatas da perna, mas em vez disso estou parado, lendo algum aviso sobre bitucas de cigarro no jardim. Óbvio que pensar não serve para nada, penso diariamente que poderia ser um Beatle ou o camisa 10 do Corinthians, e isso nunca chegou perto de acontecer.

Evidente que subir pelas escadas já aconteceu, principalmente quando o elevador quebra e não me restam alternativas. O problema é que aquela caixa metálica é chamativa demais. Às vezes chego disposto a subir andando, mas a vejo ali, paradinha, a luz dourada saindo pela fresta da porta, como se fosse um portão do Éden, dizendo “vem… vem…”, e eu vou.

Eu sei que é feio, que eu poderia muito bem subir sei lá quantos degraus (esses eu não contei, sabe como é), mas é quem eu sou. Não ando de bicicleta, como muito mais carne que vegetais, e uso o elevador. A escolha me atinge principalmente quando dou de cara com um vizinho e vejo o botão 11 ou 12 pressionado. Estico meu braço e aperto o 2, sabendo que sou um ser humano pior. O silêncio que segue me deixa espaço para imaginar o que ele esta pensando, provavelmente algo como: “Sério? Dois andares? A princesa não pode subir dois andares?”. Antes de sair, observo de relance sua expressão e confirmo que era exatamente isso que ele pensava.

O engraçado é que em outros lugares uso as escadas, talvez por receio de socializações abruptas ou de uma repentina pane nas engrenagens. Claro que isso pode acontecer no meu prédio, mas seria como ficar preso em casa, em um local conhecido, muito diferente de um elevador qualquer. Sem contar que fora de casa, nesses prédios comerciais, há ascensoristas, figuras tenebrosas e pouco confiáveis, que, volta e meia, podem sabotar sua ida à lanchonete e mandar você direto para o andar da gerência.

Fico com meu elevador mesmo. Bonito, ocasionalmente cheiroso, sem a Garota de Ipanema em versão instrumental chic, e que sobe dois andares com elegância ímpar. Sim, conseguiria usar as escadas, me exercitar, gastar a minha energia em vez da de todos nós. Não há escapatória para o sentimento de culpa. Sinto que, por ter plena consciência de tudo isso, devo ser um sujeito tão elevado quanto o maldito ciclista do nono andar, que sobe todo dia com sua magrela nas costas e me dá bom dia enquanto abro a porta do elevador.

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