Arquivo do mês: maio 2012

Meu médico novo

Sempre passei por consultórios de médicos. Tenho asma, e não tem muito o que fazer, vou continuar visitando doutores até o fim da vida.

Os médicos, em sua maioria, são bem parecidos; demoram para atender, possuem revistas de abril de 2007 nas salas de espera, além de mocinhas que tentam se desculpar com o pessoal que está cansado de esperar. Muitos possuem fotos da família em algum lugar do mundo colocadas meticulosamente em um porta-retrato sobre a mesa. É importante ter uma parede colorida, para dizer que é um médico gente fina, alegrão, e para deixar o ambiente mais tranquilo. Eu, particularmente, gosto do lugar onde fica a água e as bolachas, que, mesmo não sendo grande coisa, é melhor do que nada.

Ontem, fui a um desses médicos comuns, 1 hora e pouco de espera com gostinho de 4 horas e muito. Li uma revista Veja que falava do mensalão, e ouvi a mocinha explicar para uma senhora irritada que ela era a próxima e que logo menos seria atendida. Tomei um copo d’água e fui chamado para o consultório. Entrei meio sem jeito, como faço sempre que comprimento alguém que não conheço.

Sentei na cadeira e observei a sala. As paredes eram verdes, com aquelas pinturas moderninhas, cheias de rugas e imperfeições. Na mesa, uma foto da família no Egito, e uns bonequinhos do corpo humano. “Tá com 20 anos né?”. (percebi que o médico tinha uma sútil língua presa, mas nada muito assustador). Olhei para ele e concordei: “Sim, 20”, e esperei o resto.

Ele anotou alguma coisa e voltou a perguntar: “Ta estudando o que?”, “Rádio e Tv”, eu disse. Ele olhou, e anotou mais alguma coisa. “Você fuma maconha, cheira cocaína ou fuma crack?” (a língua presa do médico aumentou nesse momento, sem explicação). “Não”, respondi seco. “Tem certeza?” (Oi?). Dei uma risadinha. “Aham, claro”. O médico não tirou os olhos de mim e continuou: “Pode falar, não tem problema” (será que eu tenho cara de quem fuma crack?). “Não, não”. “Ah, legal, por que é errado sabe?” (Não sabia, que bom que avisou, vou ali desmarcar meu fim de semana regado a cocaína e crack e já volto).

Olhei pra ele e sorri; ele continuou: “Porque tem uns filhos da puta por ai que cheiram pra caralho sabe? Se não tem asma, beleza, mas neguinho asmático vai querer fumar, é pé na cova!” (Opa, claro, se não tem asma é suave). Concordei.

Ele perguntou dos meus remédios e começou a explicar a asma. “Você vai ter essa merda a vida inteira, só vai mudar na sua reencarnação, então da próxima vez que você estiver na fila do céu, pede pra papai do céu outra doença” (Então, papai do céu, cansei de asma sabe? Rola um câncer? Osteoporose? Uma diabetezinha?). A partir desse momento desisti de responder e só fiquei ouvindo ele dizer coisas estranhas enquanto eu fazia cara de entendimento.

“Mas cara, você pode fazer o que quiser com asma, pode correr, jogar bola, escalar uma montanha, só que infelizmente não pode fumar nem cheirar” (Pô, que pena). “Porque eu sei que sua turminha curte isso ai!” (Oi? Acho que isso já está passando dos limites do normal).

O médico pediu para eu tirar a blusa e começou a ouvir meu batimento cardíaco com o estetoscópio. Nesse momento pude refletir sobre o que estava acontecendo ali, no quão estranha aquela conversa era.

Sentamos novamente e ele começou a explicar o funcionamento dos brônquios. “Olha Pedrão, esse aqui é um brônquio normal, sem merda nenhuma, de um cara que não fuma, não cheira, não faz porra nenhuma. E esse aqui é o seu brônquio, todo fodido, cheio de catarro” (impressão minha ou o médico acabou de me aloprar?). “O remédio ajuda a desinflamar o brônquio fodido, mas não adianta nada se você fumar e cheirar” (Aham, entendi já).

O doutor anotou uns exames que eu tinha que fazer, como o de sangue, que eu não posso comer “merda nenhuma” 12 horas antes, e finalizou a consulta. Me levantei da cadeira pensando no que havia acabado de acontecer ali, segundos atrás. O médico foi até mim e eu lhe estendi a mão, que ele ignorou e me deu um abraço, colocando a cabeça no meu peito e a mão direita no meu cocuruto, fazendo movimentos de cócegas. Olhei para sua parede verde, esperando que aquele momento acabasse logo. Ele se despediu e disse para eu me cuidar com esse tempo frio. Agradeci e fui embora rapidamente.

As vezes, sem se esforçar muito, você tem uma crônica na mão.

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