Banca 2.0

Não sei bem o que aconteceu, mas parece que ultimamente banca de jornal anda com uma mania estranha de grandeza. É cada vez mais raro ver aquelas casinhas metálicas com uma revista aqui e outra ali. Agora é tudo mini shopping center, como se as bancas tivessem apertado aquele botão supersônico dos Power Rangers e se transformado em megazords.

Não foi minha intenção dificultar a vida do leitor com essa citação anos 90, mas é que, pra mim, também está difícil entender essa situação toda. De repente as bancas de jornal, famosas pela pequenez simpática que ostentavam, mandaram tudo ao raio que o parta e decidiram que passariam a vender cachecóis de times, miniaturas de aviões militares, frigobares do Romero Britto, terrenos em Pirapora do Bom Jesus, e todo tipo de treco que parece não ter relação com o conceito banca de jornal.

É a crise do noticiário impresso, dizem. Desde o momento em que o caderno de economia virou banheiro de animal de estimação, e que o caderno de esportes passou a ser usado somente pra embrulhar vasos, os singelos quiosques tiveram que se reinventar. Passaram, então, a vender o que desse na telha.

Acho triste. Lembro da banca do Miguelas, na Vila Beatriz, onde meu pai ia conversar com seus amigos e eu ficava sentado, lendo gibis da Turma da Mônica. Lia todos e os devolvia na prateleira. Miguelas sorria e me dava bolachas maisena, sem se importar se eu pagava, sujava, ou fazia o que fosse com a revistinha. Agora, já imagino o dia em que as bancas de jornal terão catracas, comandas e serviço de valet.

É evidente que não tiro a razão dessa megalomania, é preciso sobreviver. Sou só um pouco nostálgico. Tenho apego às lembranças dos gibis, do chão encardido da banca, da bala de 5 centavos, das figurinhas do Brasileirão de 98. É preciso aceitar que tudo muda, uma hora ou outra, mas, pedindo licença pra soltar um clichêzinho, querer abraçar o mundo às vezes pode acabar com a gente.

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Básico

Enxaguava meu cabelo com o Pantene 2 em 1 quando, assim, no meio daquela usual avalanche de pensamentos aleatórios que a gente tem no banho, me dei conta de que sou um cara bastante ordinário. Não digo isso no sentido homem, branco e hétero, algo que já havia percebido. Digo no sentido mais arrozfeijãobatatafritaebife do negócio, sabe? Sou praticamente um pretinho básico ambulante.

Suspirei enquanto a água quente batia nas minhas costas. Sou o rei do óbvio, bem que minha mãe me avisou. E é verdade. Gosto de pastel de queijo e pizza de mussarela. Sou daqueles que encontram um prato favorito em um restaurante e nunca mais precisam olhar o cardápio. Pra mim, coxinha é sem catupiry, cheddar ou sei lá o que colocam na coxinha hoje em dia. Gosto do clássico.

Pra falar a verdade, não sei bem quando isso aconteceu, se foi gradual, algo de berço, culpa do alinhamento dos planetas ou do meu signo chinês. Só sei que, quando vou ao cabelereiro e o sujeito me pergunta como eu vou querer, respondo que quero cortado mesmo, com tesoura. Se tivesse um carro, provavelmente seria um Gol. Torço pro Corinthians. Sou fã de Beatles. Entende?

E não está fácil ser assim. Os básicos perderam a vez. É um tal de pastel de feijoada pra cá, pizza de strogonoff pra lá, bolo de chiclete acolá. Outro dia, aliás, passando pela Vila Madalena, vi uma loja de balas gourmet (seja lá o que isso signifique). Meu coração acelerou, com medo. Coitada da 7 Belo, da Chita e da Frumello. Onde foi parar Juquinha?

Me dê sorvete de limão, de coco, de chocolate! Saí pra lá com essa lasanha desconstruída de alface e nozes! Eu quero é suco de laranja, pão na chapa, calça jeans e camiseta! Não me venham com esse papo de “nossa, mas você é muito básico”, como se isso fosse um defeito. Do básico vieste, ao básico voltarás.

Voltei mesmo foi ao banho. A sinfonia da água do chuveiro tamborilando os azulejos e o vidro do box ecoava e dispersava meus pensamentos soltos. Na minha frente, o tubo de um litro da Pantene. “Cuidado clássico – cabelos normais”. Nem tudo está perdido, amigos. Vida longa ao básico!

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Preciso dizer

Preciso dizer que, todo sábado, por volta das dez e meia da manhã, um rapaz fedendo a Cheetos embarca no ônibus Parque Continental/Metrô Trianon Masp no segundo ponto da Avenida Jaguaré.

O rapaz veste chuteiras de futebol society azuis, que ele comprou a contragosto, pois preferia pretas. Como estavam fora de linha, teve que se contentar com as coloridas e culpar a gourmetização do futebol. A pelada na mesma noite não deixava que ele adiasse a compra, e seu pé tamanho 40 impedia que ele pedisse algum par emprestado aos amigos, que naturalmente calçam números de acordo com a faixa etária deles, e não com a de um menino no início da puberdade.

O rapaz usa meiões pretos do Corinthians arriados até o meio da canela e, normalmente, está com um short do time inglês Sunderland, comprado por 5 libras na loja Lillywhites, em Piccadilly Circus, Londres. Sua camiseta varia. Às vezes aparece com uma de treino da Portuguesa, cinza e verde, herdada do pai. Outras, uma listrada do Corinthians, de 2013. Também já usou de times europeus e sul-americanos. Tem preferência especial pelas do Arsenal, a do West Ham, a do Estudiantes, a do Celtic e a do Porto.

Carrega nas costas uma sacola esportiva da Adidas e escuta música em fones de ouvido. Seu cabelo está sempre molhado de suor e seu andar é vacilante. Diz bom dia para o motorista e para o cobrador, quando lembra. Usa óculos escuros quando faz sol e um casaco cinza de capuz quando faz frio.

Prefere se sentar no banco da janela, em lugares que não haja ninguém ao lado, pois sabe que é provável que seu odor não seja dos mais agradáveis. Imagina que, quando o vento se torna mais forte, seu cheiro se espalha pelo ônibus e todos torcem o nariz para ele, o rapaz que acabou de jogar duas horas de futebol e está sentado ali, empesteando o ambiente. É bem possível que ele não esteja tão fedido, já que passa desodorante na tentativa de bloquear o cheiro até chegar em casa e tomar banho, mas mesmo assim tende a se sentir o centro das atenções da condução.

O rapaz fica feliz quando o ônibus atravessa o rio e o bodum de esgoto invade as narinas dos passageiros. Imagina que é a mesma sensação de tirar 4 em uma prova e ver o amigo tirar zero. Desce no segundo ponto da Avenida Doutor Arnaldo, para alívio dos que permanecem dentro do ônibus. Caminha alguns minutos, chega em casa, e toma banho.

Acho que não preciso dizer quem é o rapaz.

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O timing do aplauso

Ocasionalmente, talvez por karma ou devido a explicações astrológicas complicadas, cometo algum deslize que me assombra por vários dias seguidos. Não é nada grave ou mesmo criminoso, apenas aquela burrada que te faz querer entrar no primeiro buraco que achar, além de manter a constante dúvida em sua cabeça: “como eu pude fazer um negócio desses?”.

Muitos dos problemas estão ligados às regras não faladas da sociedade, aquelas coisas que devemos saber, mas ninguém nos ensina. Algo como não calçar chinelos e vestir camisa regata num concerto de ópera; ou não cuspir a comida no prato, caso o casal de amigos que te convidou para jantar tenha exagerado na pimenta. Aqueles pequenos erros que não são uma tragédia completa, mas que causam um sentimento bastante vergonhoso.

Pois bem, posso dizer que não sou exatamente a pessoa com mais facilidade em seguir essas tais regras subentendidas e, dia desses, fui novamente castigado por isso. Fui ao teatro, em uma apresentação um tanto elaborada e cheia de detalhes impressionantes, e caí em uma das armadilhas mais comuns em cerimônias como essa, o aplauso fora de hora.

Poderia até me defender aqui e dizer que não foi nada de mais, só que sou um sujeito que preza pela sinceridade e, assim, preciso dizer que foi o pacote completo, palmas entusiasmadas que acompanharam uma não menos empolgada levantada da poltrona. O que posso dizer em minha defesa é que a peça era realmente ótima e que, apesar de não ter terminado naquele momento, já estava merecendo receber meus louvores.

Após três embaraçosos e eternos segundos em que percebi que ninguém me acompanharia e em que notei um ligeiro ar de pânico no rosto dos atores, me abaixei discretamente e afundei na cadeira carregando um sorriso amarelo e fingindo que nada havia acontecido. Ao final, só aplaudi com certeza absoluta, após o salão estar tomado de ovações e os atores estarem executando seu famoso ritual de gratidão.

É preciso deixar claro, também, que há casos mais graves de falta de timing no aplauso que o meu. Por exemplo, aqueles que não se dão conta da bola fora e seguem batendo as mãos de olhos fechados até sabe-se lá quando. Existem também aqueles que, não satisfeitos em errar o tempo, incentivam as pessoas próximas a se juntar ao coro com gritinhos de “vamo lá, galera! Borá aplaudir!”. Mas é provável que o pior caso seja o do sujeito que, além de aplaudir na hora errada, ainda se acusa. Aquele camarada que bate duas palmas, cria um silêncio constrangedor e o usa para dizer baboseiras se explicando pelo erro de timing em meio a uma multidão de pessoas que só querem que ele cale a boca.

É um erro honesto, do bem. Em formaturas excruciantemente longas, em discursos de padrinhos de casamentos ou em qualquer teatro por aí, é certo que trombaremos com o aplauso adiantado. Pode acontecer com qualquer um, até com você. Comigo também, claro, apesar de estar me prevenindo. Agora, em qualquer ocasião que peça aplausos, minhas mãos estarão bem guardadas nos bolsos.

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O palhaço no cabeleireiro

Às vezes decido, só pra alimentar minha querida amiga procrastinação, que é hora de cortar o cabelo. Nesses momentos, bato pé até o digníssimo salão do senhor Fernando, um cabra arretado que dá um trato nas cabeleiras aqui do bairro e joga conversa fora com qualquer despercebido que passar na rua.

Chego sem marcar hora e pergunto se dá pra cortar, no que ele sempre responde: “dááá”, assim mesmo, com o A alongado, como quem diz “óbvio que dá, sempre dá”. Me ajeito no canto e espero minha vez enquanto ele arruma o telhado e a bigodeira de um vovô barrigudo. Depois me sento e zefini, vejo meu cabelo caindo pelos ombros e se espalhando pelo chão.

Da última vez que fui lá, tudo corria normalmente, até que um palhaço apareceu. Veja, não era um sujeito que não gosto, um vizinho que não vou com a cara, era realmente um homem vestido com roupas de palhaço, um profissional da palhaçada. Ele deu passos desajeitados pra dentro do salão com seus enormes sapatos coloridos e fez uma saudação como quem entra em um picadeiro.

Confesso que fiquei sem jeito. A gente nunca sabe o que faz quando aparece um palhaço fora do ambiente de palhaço. Por exemplo, não é pra rir do palhaço no metrô, é? Ele está voltando pra casa depois de um longo dia de piadas, não me parece simpático dar risada. No cabeleireiro é igual, ele foi lá porque precisava, como qualquer um, cortar o cabelo, nem que fossem aqueles tufos coloridos que eles têm ao lado da cabeça.

Fiquei olhando com auxílio do espelho, tentando parecer invisível. A última coisa que eu queria era que aquele cara começasse a interagir comigo. Eu teria que fingir que sou legal e seria um desastre. Pra minha sorte, nada disso aconteceu. Ele se sentou e se livrou da peruca colorida, revelando alguns fios espalhados em cima de uma cabeça quase careca. Depois abriu a carteira, retirou uma foto do Brad Pitt e entregou pro Jailson, que também corta cabelos no salão.

Todos riram muito, então eu também ri, aliviado por ser um mero espectador. “Se conseguir fazer igual, te levo lá pro circo no lugar do mágico!”, disse o palhaço, vestindo o avental em cima de seu macacão alegre. “E aproveita pra dar uma aparada no Bolonhesa aqui”. Olhei no espelho pra entender melhor aquela conversa. O palhaço se abaixou, começo a passar a mão no ar e disse: “Não é mesmo garoto?! Não é Bolonhesa?! Isso mesmo!”, e se virou pro Jailson, “pode passar a mão, ele não morde…”. Jailson riu encolhendo o pescoço e balançando os ombros: “Oxeee!”.

O cachorro imaginário ainda recebeu água (essa, de verdade) de seu dono antes do corte, o que gerou em todos uma nova onda de gargalhadas. Nessa hora, meu cabelo já estava mais no chão do que na cabeça, e outro cliente chegou. Fernando disse que dava, claro que dava, para cortar o cabelo dele, e finalizou o meu num instante.

Olhei minha cabeça de ovo no espelho, ajeitei o topete e fui ao banheiro. Quando voltei, vi o novo cliente esbravejando algo sobre política com a cara vermelha e o olho esbugalhado e, do lado oposto, o palhaço dando uma flor pra uma das manicures.

 

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Sobe

Moro no segundo andar de um prédio antigo e, muitas vezes, não sem culpa, subo de elevador. Preste atenção no que digo, não sou um bitolado, sinto remorso, mesmo que já dentro da cabininha, durante os sete segundos (sim, eu contei) que levam do térreo ao meu destino final. Penso que poderia estar usando as escadas, exercitando coxas e batatas da perna, mas em vez disso estou parado, lendo algum aviso sobre bitucas de cigarro no jardim. Óbvio que pensar não serve para nada, penso diariamente que poderia ser um Beatle ou o camisa 10 do Corinthians, e isso nunca chegou perto de acontecer.

Evidente que subir pelas escadas já aconteceu, principalmente quando o elevador quebra e não me restam alternativas. O problema é que aquela caixa metálica é chamativa demais. Às vezes chego disposto a subir andando, mas a vejo ali, paradinha, a luz dourada saindo pela fresta da porta, como se fosse um portão do Éden, dizendo “vem… vem…”, e eu vou.

Eu sei que é feio, que eu poderia muito bem subir sei lá quantos degraus (esses eu não contei, sabe como é), mas é quem eu sou. Não ando de bicicleta, como muito mais carne que vegetais, e uso o elevador. A escolha me atinge principalmente quando dou de cara com um vizinho e vejo o botão 11 ou 12 pressionado. Estico meu braço e aperto o 2, sabendo que sou um ser humano pior. O silêncio que segue me deixa espaço para imaginar o que ele esta pensando, provavelmente algo como: “Sério? Dois andares? A princesa não pode subir dois andares?”. Antes de sair, observo de relance sua expressão e confirmo que era exatamente isso que ele pensava.

O engraçado é que em outros lugares uso as escadas, talvez por receio de socializações abruptas ou de uma repentina pane nas engrenagens. Claro que isso pode acontecer no meu prédio, mas seria como ficar preso em casa, em um local conhecido, muito diferente de um elevador qualquer. Sem contar que fora de casa, nesses prédios comerciais, há ascensoristas, figuras tenebrosas e pouco confiáveis, que, volta e meia, podem sabotar sua ida à lanchonete e mandar você direto para o andar da gerência.

Fico com meu elevador mesmo. Bonito, ocasionalmente cheiroso, sem a Garota de Ipanema em versão instrumental chic, e que sobe dois andares com elegância ímpar. Sim, conseguiria usar as escadas, me exercitar, gastar a minha energia em vez da de todos nós. Não há escapatória para o sentimento de culpa. Sinto que, por ter plena consciência de tudo isso, devo ser um sujeito tão elevado quanto o maldito ciclista do nono andar, que sobe todo dia com sua magrela nas costas e me dá bom dia enquanto abro a porta do elevador.

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Edvaldo

Distraído na entrada do prédio, assobiando alguma música chiclete de qualidade questionável, sou surpreendido por Carlos, o porteiro da tarde, que vem com notícias péssimas. “Edvaldo morreu ontem”, diz de dentro da cabininha, parando por um segundo de batucar a tela de seu celular.

Olho assustado. Edvaldo? Não pode ser. Edvaldo é muito jovem para morrer, deve ter lá seus 45 anos, se muito. E outra, é porteiro antigo, da velha guarda do prédio, folclórico. Esses não morrem, se aposentam com festinha na portaria e vaquinha de bota fora. Mas Carlos confirma, pesaroso. Caiu na rua e bateu a cabeça, deu piripaque, foi direto para o hospital. Dez dias na UTI e foi isso.

Penso vários palavrões e falo só alguns. A gente não espera que o porteiro vá morrer assim, como os outros morrem. O porteiro entrega as cartas e fala de futebol. O porteiro dorme de madrugada e a gente grita lá da rua para acordar. Interfonamos para ele deixar o Gol preto entrar na garagem. Ele interfona para a gente ir pegar a pizza. Tem que ser isso, sem esse papo de morrer que, francamente, não está com nada.

E o Edvaldo ainda? Não pode. Eu era fã daquele baixinho atacarrado. Seu sorriso fácil, o sarro diário. A primeira vez que o vi, vestia uma camiseta da banda Calcinha Preta, adquirida, segundo ele, em uma pechincha num bacião do Largo da Batata. Mais para frente o sindico definiu que os porteiros vestiriam camisa social e calça, uma atrocidade, mas nem assim o Ed deixou de ser o Ed.

Ele ainda tinha uma inconfundível marca, o edvaldês. Sua língua própria, uma mistura de português com sotaque cearense e gírias totalmente inventadas por ele. Tudo isso embalado por um ritmo de fala que faria inveja a qualquer repentista ou vocalista de banda de heavy metal. Era passar pela portaria que lá vinha o Edvaldo metralhando um edvaldês incompreensível seguido de gargalhada. Eu respondia qualquer bobagem e ria junto, em uma conversa improvisada. Às vezes, passando pelo boteco da esquina, avistava o Edvaldo, copo na mão e conversa fiada. Ele me via e, de primeira, mandava:“Ô Pedrão, hoje só amanhã!”.

Ele era meu preferido, mas sinceramente, talvez isso não valha de nada. Nunca falei isso a ele. Nem fiquei sabendo que estava internado. Não fui ao velório ou ao enterro, não liguei para nenhum parente para prestar condolências. Nem sei se tinha parentes. Fico matutando isso enquanto escrevo essa meia dúzia de palavras que não servem para muito.

Me sinto mal e penso que falei com Edvaldo por quase todos os dias durante anos, mas mesmo assim, pouco sabia sobre ele. O via sempre, muito mais que familiares ou amigos. Ele me acompanhou crescendo, da pré-adolescência até a vida adulta, mas nunca seríamos convidados para o aniversário um do outro. Ele abriu o portão para todos que vieram em casa, me ajudou a sair quando quebrei a perna, e não sei se era casado, se tinha filhos. É uma proximidade gigante e, ao mesmo tempo, uma distância equivalente.

No elevador, no dia seguinte, leio o obituário. Seu nome em negrito, Edvaldo Severino Alguma-Coisa Tavares. Dividíamos o mesmo sobrenome e eu nunca soube. Talvez fossemos até parentes. Aquilo me atinge em cheio. Porra primo Edvaldo, que cagada.

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